terça-feira, 30 de junho de 2026

Histórias peregrinas — Brasília

No último post sobre São José dos Campos, mencionei que a cidade não me fascinou. Mas, ao mesmo tempo, fiquei me perguntando que sentimento era esse. Então fiz a pergunta natural: o que me fascina? A verdade é que isso não é tão claro pra mim. Resolvi então olhar pra trás e tentar responder a essa pergunta vendo as histórias que tenho para contar das cidades por que passei. Quem sabe isso ajude a lançar luz sobre a questão.

Vou contar as histórias na ordem das cidades. Assim, comecemos por Brasília.

Prédios residenciais em Águas Claras, Brasília, vistos do alto durante o dia

cheguei a comentar que Brasília me fascina. Ela é o que o Brasil poderia ser se fosse só um pouquinho mais organizado, é um lugar único e sem paralelos no Brasil (pelo menos do meu ponto de vista). A cidade encanta por vários motivos, mas uma das coisas de que mais gosto nela é o elemento humano. Cheguei a falar isso também no post sobre a cidade, mas quero falar um pouco mais sobre isso.

Certo dia, eu saí pra passear em Águas Claras. Era noite e o clima estava ótimo. A uns dois quarteirões do nosso prédio havia uma praça enorme, cercada de grandes prédios, cheia de verde e de vida. A praça estava lotada. Um grupo de pessoas jogava tênis, outros vôlei, na quadra de basquete se ouvia a bola quicando, na pista de skate as rodinhas cortavam o chão. Pessoas riam, conversavam, viviam.

Eu dei uma volta na praça, fingindo que estava caminhando. Tudo mentira. Eu estava observando. Vendo o casal que fazia piquenique na área verde, o pai que passeava com o carrinho de bebê enquanto a mãe fazia um cooper, a velhinha com sua roupa de academia e fazendo uma caminhada bem mais eficiente que a minha. E em tudo me fascinava. 

Foi também em Águas Claras que descobri que amo prédios. Vejo-os imponentes quando caminho ao lado deles, daquele jeito que nem dá pra olhar pra cima direito sem correr o risco de uma leve vertigem. Mas não são os prédios em si que me fascinam. Eles têm seu valor, mas, novamente é a vida. 

Sou fascinado por olhar pela janela e ver prédios e prédios, cada um cheio de várias janelinhas. Em uma das janelas, um homem senta no sofá e assiste à TV; em outra, uma mãe embala o bebê; já naquela, o casal de idosos reparte uma sopinha e alguém ri. Em outra, alguém chora. Em algumas as luzes são brancas, em outras amarelas, outras estão sem luzes acesas, mesmo tendo pessoas ali.

Isso não fascina vocês também? De ver aquela infinitude de histórias, cada uma tão complexa e tão cheia de importância quanto a outra. De passar pelo corredor do prédio e pensar que cada porta daquela é uma vida inteira, tão rica e tão única. 

Sair na rua e ver isso me fascina de um jeito que não sei explicar. Certo dia, eu resolvi acordar cedo pra caminhar naquela mesma praça. Havia poucas pessoas, mas uma cena me marcou. Um rapaz, todo de terno, com uma mochila cara nas costas. Estava bem arrumado, barba feita, sapato polido. Certamente alguém que trabalhava em alguma importante repartição pública da capital do Brasil. 

Ele sentou-se num banco de pedra da praça, o mesmo em que todos sentavam, talvez o mesmo em que eu mesmo havia sentado na noite anterior. Ali, ele pegou uma sacola simples, tirou o salgado barato de padaria, repousou o copinho de café no banco e devorou a comida, atrasado para o expediente que logo ia começar. 

Brasília é um retrato perigosamente fiel do Brasil, onde as aparências não revelam toda a história, apenas mascaram parte dela. E quanto mais penso nisso, mais me encanto. Acho que descobri que é observando outras pessoas que consigo aprender um pouquinho mais sobre mim. E isso me fascina.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

São José dos Campos é uma cidade boa para morar?

#Introdução

Meus caros, é até difícil de acreditar, mas já se passaram dois meses! Parece que foi ontem que chegamos em São José dos Campos e nos deparamos com tanta coisa interessante na cidade. Neste post, vamos falar um pouco das nossas impressões, guiados principalmente pela nossa lista de critérios.

Como sempre, vou responder à pergunta do post logo no começo: São José dos Campos é uma cidade boa pra morar? 

Não. Na verdade, é uma cidade ótima para morar!

Nascer do sol visto de um apartamento em São José dos Campos

#Pontos positivos


Acho que o primeiro impacto que tivemos logo na chegada foi ver como as pessoas são acolhedoras. No nosso prédio, na padaria, no mercadinho, no posto de gasolina. Não importa onde íamos, as pessoas se importavam, faziam questão de ajudar, eram gente como nós. 

Isso se traduziu (e muito!) na igreja. Frequentamos a Igreja Presbiteriana no Jardim Sul e tivemos um tempo fantástico ali. Parecia que já éramos da família. Nessa igreja fizemos amigos tão queridos que é um absurdo pensar que há dois meses nem nos conhecíamos. Toquei na orquestra da igreja, participamos numa aula com os adolescentes e aprendemos muito naquele lugar de modo geral. Provavelmente foi o ponto mais alto de São José dos Campos fácil fácil. 

Outra coisa que chamou a atenção, foi o acesso à arte. São José não é uma cidade grande, nem uma capital, mas a quantidade de atividade artística que essa cidade oferece é fora do comum! Não só assistimos a duas orquestras diferentes, como tínhamos acesso a feiras, saraus, cinema, festivais gastronômicos, e por aí vai. 

Além disso, ainda tive oportunidade de compor a Orquestra Comunitária de São José dos Campos e tocar dois concertos com eles. Isso, por si, já reforça a questão da receptividade que a cidade oferece. Foi a primeira vez que toquei com uma orquestra de novo em mais ou menos oito anos! Que privilégio fazer boa música.

Seguido nossa lista de critérios, quanto à conectividade, os próprios Joseenses são os primeiros a encher a boca pra dizer que São José está perto de tudo. Está a uma hora de São Paulo e do aeroporto de Guarulhos, uma hora da praia, uma hora da serra. E de fato está. No tempo em que estivemos aqui, fomos três vezes a São Paulo, simplesmente porque era muito fácil ir e aproveitar coisas boas por lá.

Além disso, o trânsito na cidade é excelente. Em São José, você chega a qualquer lugar em 15 minutos. Parece exagero, mas é isso mesmo. É como morar numa cidade do interior, tendo acesso a todas as facilidades de uma cidade grande. Ah! Preciso comentar sobre isso.

É que, pra mim, ou uma cidade é do interior ou ela é desenvolvida. Não existe uma com os dois ao mesmo tempo. Pelo menos era isso que eu achava. Veja abaixo uma foto que era a vista comum do nosso apartamento. E depois um zoom destacando alguns detalhes (perdoem a baixa resolução).

Vista de área verde em São José dos Campos observada de um apartamento residencial

Contraste entre área verde com cavalos e refinaria industrial em São José dos Campos

Na primeira foto com a seta vermelha, o que vocês veem é uma extensa área verde, com cavalos pastando. Na imagem não dá pra ver muito bem, mas via de regra sempre tem 3 ou 4 cavalos pastando. Já na outra foto com a seta vermelha, vocês veem exatamente a mesma paisagem, é a mesma vista, só que mais ao fundo tem algo amarelado quase branco no céu. É o fogo que escapa de uma das refinarias da Petrobrás. Uma única foto, dois mundos distintos, ambos em São José dos Campos.

Acho que é seguro dizer que São José é uma cidade muito avançada em diversos sentidos. Por exemplo, ela tem uma frota de ônibus 100% elétrica, as árvores da rua são todas catalogadas (sim! Dá pra escanear um QR-Code na árvore e acompanhar a evolução dela num site da prefeitura), as vagas de estacionamento na rua são catalogadas (no centro tem até placas digitais mostrando quantas vagas tem em cada rua), é nela que estão o ITA, a Embraer, a Boeing, e por aí vai. 

Além disso, o acesso à saúde é muito elogiado também. Algumas pessoas aqui falaram que nem precisam de plano de saúde, elas fazem tudo pelo SUS e o acesso é muito eficiente. A cidade, de modo geral, é bem organizada e a acessibilidade é boa. Por exemplo, fazíamos muita coisa a pé, porque estava perto e porque é bem seguro, de modo geral. 

Gente, e outra coisa. Meu Deus, como é barato e gostoso sair pra comer fora em São José! É um perigo! Quase eu coloco essa informação na categoria "Pontos negativos", porque o autocontrole vai ter que ser forte ou a dieta vai pro brejo.

Perto do nosso apartamento havia uma feira noturna, toda sexta-feira. Pois toda sexta-feira nós íamos nela. As coisas eram de extrema qualidade e o preço mais do que acessível! E isso não foi só lá, vimos isso se repetir em restaurantes, em comida fora (nossa! O Ifood mais barato que já encontrei na vida!), em coisas do dia a dia. 

Os preços de supermercado ainda não foram os melhores que encontramos na viagem. Acreditem se quiser, Brasília ainda está provando ter o mercado mais barato de todos! Mas também não achamos os preços exorbitantes; é aquela velha história de navegar entre os principais supermercados e aproveitar as promoções. Basta clicar e ver nossa tabela de custos pra ter uma ideia. 

Amanhecer em São José dos Campos mostrando neblina sobre a cidade e a região industrial ao fundo.

#Pontos negativos

Bom, nem tudo na vida são flores também, né? Por mais que vejamos coisas boas, também não podemos fechar os olhos praquelas que talvez sejam problemas ou desconfortos caso venhamos a morar aqui. De qualquer forma, São José não tem muitos pontos negativos.

O primeiro que vou mencionar aqui é o clima. Parece ser bem contraditório eu falar do clima já que, enquanto escrevo esse texto, o termômetro está marcando 16 °C. Mas é que, nessa viagem, a gente não pode pensar na temperatura da cidade somente no momento em que estamos morando nela, precisamos avaliar de uma perspectiva mais ampla.

Veja só, quando chegamos em São José já era começo do outono. Era para a temperatura estar caminhando para o frio. Porém, no nosso primeiro domingo, o termômetro do carro marcou 39 ºC. Tudo bem que essa não era a temperatura oficial, mas certamente era a sensação térmica. Semana passada, meados de junho, já praticamente às portas do inverno, teve um dia que a sensação térmica estava em 31 ºC. 

Tudo isso me fez pensar: "Gente, se perto do frio chega nessa temperatura... como será aqui no verão?" E, de fato, meus instintos estavam certos. Até mesmo os moradores reconhecem que no verão a temperatura fica bem desconfortável. Alguém na igreja comentou que perto do Natal do ano passado, a temperatura estava horrível. Por curiosidade, fui pesquisar no site do INMET. 

A temperatura oficial do dia 26/12/25 foi de mais de 37º C. E considerem que isso foi a temperatura registrada no termômetro do INMET, dificilmente localizado no centro urbano, provavelmente numa floresta em algum lugar. A sensação térmica na cidade deve ter passado de 40 ºC fácil. 

E aí eu fico com um pé atrás. Sair do calor pra ir pra outro calor... certamente não é algo que me agrada. Tudo bem que esse calor é temporário, coisa de dois ou três meses. Mas, ainda assim, é algo a se considerar e entender que talvez vá ser necessário ter ar-condicionado, por exemplo, e isso influencia nos gastos, no planejamento, etc. 

O segundo ponto negativo é uma besteira. É algo tão besta que tenho até vergonha de escrever aqui. Mas é que São José não me fascina. Argh, que terrível escrever isso. Mas infelizmente é a verdade. E eu me sinto tão injusto de me sentir assim, sabe? Tudo é tão bom, as pessoas, a cidade, as feirinhas, as orquestras... mas... sei lá, parece que falta algo. A sensação é que São José me parece ser uma cidade pra ficar confortável, não pra ser desafiado. 

Talvez eu esteja errado (e assim espero), tanto é que pra Laryssa essa cidade está no top do top. Mas parece que pra mim não rolou uma química, sabe? Aquele je ne sais quoi (leia-se: genecequá), o fascínio, o encanto. E aí eu fico me perguntando se preciso disso pra cidade ser boa, sabe? Tenho o direito de guiar essa decisão por um critério tão abstrato e subjetivo como esse? É bom estar lá, sim, de fato é muito bom... mas, sei lá, meio parece que não sei. Não sei. 

O que é isso que parece que faltou? 
Está faltando na cidade, ou está faltando em mim?

Vista noturna de prédios em São José dos Campos

#Conclusão

Bom, é necessário concluir que São José dos Campos é sim uma cidade muito muito boa para morar. Aqui o morador vai encontrar uma excelente qualidade de vida. Inclusive, em vários momentos percebi que morar em São José (e mesmo passear em São Paulo capital) é muito parecido com estar nos Estados Unidos, em vários aspectos.

Relendo esse texto, percebi como soou prático e meio frio. Ele não chega nem perto de fazer jus aos momentos sensacionais que tivemos em São José dos Campos, graças às pessoas incríveis que nós conhecemos, gente que dá pena de ter que dizer tchau. As pessoas realmente fizeram uma diferença muito grande na nossa estadia.

Mas, por enquanto é isso. Agora seguimos nossa jornada rumo a Joinville! Vamos para mares nunca antes navegados por nós e estamos animados pra ver o que encontraremos por lá!

Se quiser ler sobre as outras cidades por onde já passamos, basta dar uma olhada na página de boas-vindas do blog. Obrigado por acompanhar nossa peregrinação!

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Belo Horizonte é uma cidade boa para morar?

#Introdução

É isso aí, minha gente! Depois de dois meses morando em Belo Horizonte, creio que estamos aptos a responder à pergunta do título desse post. E como sabem, gosto de ser bem direto.

Belo Horizonte é uma cidade boa para morar? 
Não, não é.

Vem comigo que eu vou dizer o porquê.

Belo Horizonte em vista panorâmica do Mirante do Mangabeiras — como é morar na cidade

#Pontos positivos


Olha, eu vou falar uma coisa aqui pra vocês. Nosso tempo em Belo Horizonte foi um verdadeiro aprendizado. Fomos ensinados por Deus a buscar as coisas boas onde estivermos, mesmo que tudo pareça ruim. Digo isso porque foi um pouco difícil apontar os pontos positivos da cidade.

Lembrando dos critérios que elencamos para escolher uma cidade, Belo Horizonte falha em quase todos eles. A única exceção é o clima

Não posso negar que o clima aqui é bem agradável, talvez até mais do que em Brasília. Engraçado isso. O pessoal daqui acha Brasília "quente"! Mas é interessante notar que em Belo Horizonte pegamos temperaturas mais extremas que Brasília. Teve dia que fez 38ºC no horário de meio-dia. Mas, de modo geral, tivemos boas experiências com o clima. 

Um ponto positivo que consigo tirar da estadia aqui é que descobrimos o que nós definitivamente não gostamos numa cidade. Parece besteira, mas isso é bem importante. 

Quando começamos a viagem, tínhamos em mente o que queríamos, mas, até nos depararmos com algumas situações, ainda não era tão claro pra gente quais eram as coisas às quais diríamos: "Tá, isso aqui não tem como". É importante saber e estabelecer limites.

#Pontos negativos

Bom, vamos aqui ao que será o cerne desse post. Infelizmente são muitos pontos negativos, mas vou tentar agrupá-los de modo que não fique tão cansativo.

Pra começar, muito se fala que os mineiros são calorosos, afetivos, e, olha, talvez no interior de Minas Gerais isso até seja verdade. Mas em Belo Horizonte eu posso afirmar categoricamente que não são. Na verdade, Belo Horizonte é uma cidade marcada pela indiferença.

Na padaria, as atendentes não falam com você direito; no supermercado, elas nem levantam o rosto; na academia, a moça da recepção te ignora; no trânsito... ah... calma, que o trânsito vai ter uma seção própria. 

Infelizmente, as pessoas não se importam com as outras, de modo geral. E isso acaba até respingando nas igrejas. Vemos igrejas presbiterianas marcadas pela indiferença, pela falta de acolhimento, pelo total descuido com os de fora. Um pastor até me contou uma triste história, que certa vez uma pessoa chegou pra ele e falou: "Eu gosto dessa igreja porque aqui ninguém fala comigo. Eu entro e vou embora, sem ninguém se meter na minha vida." Triste. Gente que não entendeu o que é ser igreja.

Isso não significa que não haja igrejas boas. Encontramos aqui a Igreja Presbiteriana Cidade Nova, que foi um bálsamo pra gente. São pessoas acolhedoras, que se importam com os outros, que vivem e pregam a boa palavra de Cristo. Mas ficou muito evidente pra nós que essa igreja é uma exceção, não a regra. Belo Horizonte sofre com a carência de boas igrejas.

E só mais um exemplo da indiferença: um irmão da igreja estava num parque com seus três filhos. Um dos filhos caiu, bateu a cabeça no chão e começou a sangrar. O pai se viu numa situação complicada, tendo de administrar duas crianças, enquanto socorria o outro com sangue saindo da cabeça. Ninguém o ajudou, ninguém se prontificou. Na verdade, alguns até ficaram apenas incomodados porque aquilo estava atrapalhando a diversão das outras crianças. 

O trânsito, por sua vez, é a peça fundamental para todos os outros problemas de Belo Horizonte. É simplesmente um trânsito caótico, onde as pessoas não se respeitam, onde tudo vive engarrafado, onde sair pra passear é sempre estressante, porque você não sabe se vai sofrer um acidente ou não, se vai pegar uma rua alagada ou não, é sempre um grande esforço encarar a rua. A gente se sente preso.

Some-se a isso que a cidade não tem estacionamento. Não adianta você sair pra visitar um museu, porque quando você chegar lá, simplesmente não tem onde estacionar. Não é que não tem vaga. É que não tem onde parar o carro. Você vai precisar pegar um estacionamento privado distante que, por sua vez, também já corre o risco de estar cheio. Chega-se ao absurdo de ter carro, mas é preferível pegar Uber pra sair. Novamente, a liberdade diminui.

Precisamos falar também das ladeiras. No tempo todo em que estivemos aqui, a Laryssa não se sentiu segura para dirigir. E olha que ela dirige bem. Mas é que além do trânsito ser pesado, as faixas estreitas, ainda tem a questão das ladeiras, que torna tudo mais complicado. Não dá nem vontade de sair pra caminhar, tudo tem que ser feito de carro.

Mas vamos voltar pra nossa lista de critérios, vejam como o trânsito afeta. Belo Horizonte tem um bom acesso às artes? Não. Tem muita arte! Ah, se tem! Mas como se acessa? O acesso é sempre muito difícil, caro, e penoso. Pra ter uma ideia, o único ponto artístico onde encontramos estacionamento foi o Museu de Arte da Pampulha, fechado "temporariamente" para reforma desde 2019.

E dá um pouco de pena, sabe? Ouvir amigos queridos dizer que saem de casa às 6:30 da manhã pra chegar no trabalho às 9. Ou dizer que: "É só sair 40 minutos mais cedo que não pego trânsito!". Eu entendo que as pessoas se acostumam e sempre dão um jeito. Mas, meus amigos, isso não é jeito de viver. Pelo menos não pra gente.

Outro ponto da lista diretamente ligado ao trânsito: conectividade. Pra ter uma ideia, Belo Horizonte não tem aeroporto pra voos comerciais. Se você quiser chegar aqui, vai ter que pousar em Confins, que, como o nome já diz, fica bem distante da cidade. Sem exagero: leva pelo menos 1h de carro do centro até o aeroporto — sem trânsito!

Não vou comentar sobre a insegurança da cidade, sobre a população de moradores de rua que assusta até os locais, sobre a cidade ser toda pichada, suja, etc.; também não quero me deter nos alagamentos em dias de chuva que transformam ruas em rios. Quero finalizar essa seção falando de um tópico que nos surpreendeu: o custo de vida em Belo Horizonte é mais caro que em Brasília!

Pois é, minha gente. Basta ver a tabela de preços pra tirar as próprias conclusões. A única coisa mais barata aqui é a moradia, porque de fato se consegue apartamento maior em Belo Horizonte do que em Brasília, por preços até menores. Mas, de resto, é uma cidade cara. Nós evitamos sair e sempre fazemos mercado para cozinhar em casa: mas até isso estava ficando pesado financeiramente.

Veja, por exemplo, muito se fala da culinária mineira. Ela de fato é boa, mas quem disse que é todo mundo que consegue arcar? Por exemplo, você acha que todo lugar vai ter o famoso pão de queijo mineiro? Não é bem assim. 

Uma padaria, por exemplo, não vai gastar pra fazer um pão de queijo do zero, ela vai pegar os congelados que são mais baratos e colocar pra assar aos montes. Se encontra muito pão de queijo e é bem comum? Sim, mas não são os famosos. Esses são mais caros e só encontrados em lugares seletos. A comida, de modo geral, é muito parecida com a que encontramos em outros lugares do Brasil.

Foto do trânsito pesado em Belo Horizonte num começo de noite

#Conclusão

Bom, meu povo. O que dizer mais, não é? Evidente que ficamos desapontados com nosso tempo aqui. A única coisa que nos deu ânimo foi encontrar algumas pessoas que fizeram nosso tempo valer a pena. Pra terem uma ideia, depois de um mês aqui, eu já tava até pensando em ir embora. Foi só quando visitamos uns amigos e encontramos a igreja que deu vontade de continuar.

Fomos honestos com as pessoas que moram aqui, e muitas delas tiveram que concordar com as nossas objeções. Alguns ainda tentaram argumentar, que o bom mesmo é passear no interior de Minas Gerais. Olha, eu até entendo; mas se pra curtir Belo Horizonte eu na verdade tenho que sair de Belo Horizonte... acho que isso fala mais contra do que a favor da cidade.

Enfim, vamos em frente. Aprendemos muito sobre viver numa cidade, sobre a importância do acolhimento, sobre valorizar as coisas simples da vida. Em tudo damos graças a Deus, porque sabemos que ele está guiando nossa história e nos ensinando.

Obrigado por acompanhar nossa jornada! Se quiser ver o que escrevemos sobre as cidades onde já passamos, está no final dessa página: Lista de cidades.

Nosso próximo capítulo é São José dos Campos.
Até lá!

sexta-feira, 6 de março de 2026

Brasília é uma cidade boa para morar?

#Introdução


Bom, depois de dois meses morando no Distrito Federal — um mês em Águas Claras e outro no Plano Piloto — talvez seja possível responder à pergunta, pelo menos de modo superficial. Nesse post vamos destacar alguns pontos positivos e negativos da nossa experiência vivendo em Brasília. 

Pra quem não quer esperar até o fim pra ver a resposta, é o seguinte: Brasília é uma cidade boa para se morar? Se você tiver dinheiro, sim.

Vista do Congresso Nacional, no Plano Piloto em Brasília durante a estadia.

#Pontos positivos


Acho que a primeira coisa que salta aos olhos quando se visita Brasília é como a cidade é organizada. Sério, é um absurdo. Brasília é um exemplo vivo do que o brasileiro seria capaz de fazer se fosse só um pouquinho mais focado e resolvesse fazer a coisa do jeito certo. 

O urbanismo dela não é perfeito, evidente — afinal de contas, ainda é Brasil. Mas a malha viária é excelente, o trânsito, mesmo sendo pesado, acaba fluindo. Além disso, pelo menos no Plano, a cidade que tinha tudo pra ser só concreto acaba sendo muito bem arborizada. 

Ficamos hospedados no setor Sudoeste e, meu Deus, como é agradável sair pra caminhar no Plano. Dá gosto de ver as árvores balançando, de sentir o vento fresquinho no rosto, de encontrar amigos e sair pra comer. Nesse ponto, não há dúvida, Brasília é muito boa para se morar.

Mas calma que me perdi um pouco no meu devaneio. O melhor jeito de avaliar a cidade é usando os critérios que elencamos no começo dessa jornada.

Sobre o clima, Brasília está no limite. É quase sempre bem agradável durante a noite, mas durante o dia pode fazer um calor que incomoda. Chegamos a ver 35º C — nossa, que absurdo! (Contém ironia. Basta ver nosso comentário sobre o clima de Boa Vista/RR). 

Brincadeiras à parte, o clima é bem agradável. Mesmo quando fica quente durante o dia, à noite dá uma amenizada. Mas o povo local disse que tem épocas em que fica ainda mais quente. Bom, isso é algo a se considerar, com certeza. Nesse quesito, diria que o clima fica numa categoria neutra.

A conectividade de Brasília também é bem interessante. É um dos poucos aeroportos no Brasil que têm voos diretos para todas as capitais, além de oferecer rotas internacionais. Por outro lado, achamos os arredores do DF um pouco esvaziados. Vou comentar isso na segunda parte do post.

Por outro lado, o acesso às artes compensa demais. É impressionante ver como tudo ali orbita em torno de Brasília. Tivemos a oportunidade de ver um autêntico show de MPB na Asa Norte, passear pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (que funciona como um museu, com várias exposições), e contemplar a arquitetura de Oscar Niemeyer. 

Olha, eu nem sou tanto da arquitetura, mas é que passear na Esplanada dos Ministérios e contemplar aqueles prédios, é algo fenomenal. Como se não fosse suficiente, passear ainda na Ermida Dom Bosco foi um presente à parte, um lugar que traz e orna a beleza da natureza de Brasília. 

Meu único porém no acesso às artes, é que é muito difícil conseguir assistir à Orquestra do Teatro Nacional. Os ingressos até são gratuitos, mas eles se apresentam apenas uma vez ao mês e os ingressos esgotam rápido demais, não temos nem chance de conseguir. Pra um lugar que se propõe tão artístico, achei a música erudita, no mínimo, um pouco seleta demais.

Um último ponto aqui, não elencado antes, mas que merece destaque, é a segurança em Brasília. Em Águas Claras muito mais, porém até no Plano ainda se vê um nível de segurança muito impressionante. As pessoas andam com celular na rua, caminham até tarde da noite, e até deixam carro na rua sem problemas.

Pra se ter uma ideia, no tempo inteiro que ficamos no Sudoeste, nosso carro ficou estacionado na rua (o prédio não tinha garagem) e não tivemos problema nenhum. E não só nós, como todos os outros moradores. 

Nem todo lugar em Brasília é seguro. Quanto mais se afasta do Plano, mais perigoso fica (até mesmo com favelas nas regiões mais distantes); e mesmo o Plano tem algumas áreas que são mais inseguras (como parte da Asa Norte). Porém, mesmo com tudo isso, é gritante como Brasília é uma cidade segura de modo geral.

Copa das árvores no Plano Piloto, mostrando a arborização característica de Brasília.

#Pontos negativos


Bom, vamos começar pelo mais gritante deles: o custo de vida em Brasília. Engraçado que falo isso, mas, de modo geral, o custo de vida é até mais barato que Boa Vista/RR, basta dar uma olhada de relance na Tabela comparativa. Energia elétrica, gasolina, hortifruti, praticamente tudo é mais barato do que em Boa Vista. 

O problema mesmo são dois. Primeiro, a moradia. Gente, é impressionante como tudo em Brasília é bem apertadinho. Até os apartamentos mais espaçosos, ainda se vê a mentalidade de economia de espaço. 

Por um lado, isso é bom, por outro, assusta pagar tão caro em um apartamento tão pequeno! Morar em Águas Claras já era caro, no Plano então, vish!, morar bem é uma fortuna. E, do meu ponto de vista, nem vale tanto a pena assim, a não ser que você trabalhe no Plano.

Digo isso porque se for pra gastar mais de meio milhão num apartamento, prefiro comprar um em Águas Claras, onde tudo é mais novo, o prédio já vem com academia, piscina, portaria e tudo o mais. Pra quem trabalha online, como eu, faz muito pouco sentido pagar caro para morar no Plano quando se tem a opção de um lugar com mais conforto. 

O outro ponto negativo do custo de vida é aquilo que já falei no post de Águas Claras: tudo é muito gourmetizado. Não existe mais padaria de bairro, não existe mais academia de bairro, não existe mais o cachorro-quente da esquina. Tudo é preço de loja. E os preços de loja são preços de boutiques. Sair pra comer, de modo geral, é bem caro.

Sobre os arredores, nos parece que tudo gira tanto em torno do Distrito Federal, que sobram poucas opções. Quero dizer, o interior do Goiás é bonito e especialmente bom para passeios que visam o turismo ecológico. Mas é que, como já dissemos em post anterior, esse definitivamente não é o nosso estilo de turismo. Então se for pra ir de carro, me senti sem muitas opções.

Outro ponto que merece atenção é que, enquanto o urbanismo da cidade é um marco do que o brasileiro é capaz de fazer com a organização, ao mesmo tempo ele peca por esquecer, de modo geral, do pedestre.

Brasília é uma cidade pra se andar de carro, não tem como. Quem está em Águas Claras consegue viver uma exceção, onde dá pra fazer tudo a pé. Mas no Plano, mesmo que seja organizado, as distâncias permanecem. E distâncias essas que só com carro mesmo. 

Sem exagero: trajetos que são 7 minutos de carro, podem ser quase 1 hora a pé! Quem não tem carro ou depende do transporte público em Brasília sofre. Infelizmente é uma cidade pensada para carros, com uma malha viária sensacional, mas com poucas boas opções para pedestres.

Casal ao lado do letreiro “Eu amo Brasília”, simbolizando a experiência de morar na capital federal.

#Conclusão

Faltou um ponto a se comentar, que deixei para o final de propósito. Um critério que julgamos essencial, que inclusive é o primeiro critério da lista: que a cidade tenha boas Igrejas Presbiterianas do Brasil. E sim, Brasília as tem.

Mas vou ser honesto aqui com vocês, que Brasília talvez tenha até IPBs demais. Demais a ponto de vermos algumas coisas que nos deixam com um pé atrás. De nos fazer pensar até onde algumas comunidades podem ir e ainda serem chamadas de "presbiterianas".

Isso não quer dizer, claro, que não tenhamos encontrado boas IPBs. Nossa, e como encontramos. Enquanto em Águas Claras, congregamos na 1ª Igreja Presbiteriana de Taguatinga (coisa de 15min de distância). Toda vez que voltávamos da igreja, olhávamos um para o outro e dizíamos: "Será que ainda precisamos continuar? Porque aqui é tão bom, que talvez já dê pra ficar."

No período em que estivemos no Plano, frequentamos a Igreja Presbiteriana do Sudoeste. Uma igreja pequena, mas tão tão acolhedora, que nos deu pena dizer tchau. Uma comunidade que nos faz ter vontade de voltar e morar lá.

Nenhuma dessas igrejas é perfeita, nenhuma de fato será. Mas as duas têm algo que faz diferença: as pessoas. E essa é a verdadeira conclusão que tiramos de Brasília, que vai além das pessoas que conhecemos nas igrejas.

Em Brasília nós temos amigos. Gente que se importa com a gente, que faz questão de estar perto. Gente pelas quais nós nos importamos, gente a quem não apenas queremos bem, mas queremos fazer de tudo ao nosso alcance para que vivam bem. Gente que nós amamos. 

Se em todo lugar a que formos encontrarmos pessoas assim, então essa viagem vai ser muito mais difícil do que imaginávamos. Brasília, apesar de todos os seus custos e poréns, ainda é uma cidade que está no páreo, uma cidade que dá vontade de voltar e morar.

Brasília, nós gostamos bastante de você. 
Quem sabe o que Deus tem preparado para nossa história?

sábado, 31 de janeiro de 2026

Morando em Brasília — Águas Claras

Brasília e o Distrito Federal

Bom, vamos lá, meu povo. No meu primeiro post sobre Boa Vista, disse que não faria uma exposição enciclopédica da cidade... mas meio que vou ter que fazer isso aqui, porque Brasília é um caso meio único para quem pensa em mudar de cidade. É que não estamos num estado, mas no Distrito Federal.

Ilustração do Distrito Federal, conhecido como “quadradinho”, localizado no estado de Goiás.

A primeira coisa a se entender é que o Distrito Federal não é um estado, mas um pedaço de território no meio do Goiás. Aliás, eu não sabia, mas o pessoal aqui costuma se referir ao DF como o "quadradinho do Goiás"! Achei isso bem curioso. Ele não é um município de Goiás, mas um território próprio, dividido em Regiões Administrativas (RAs) — e é aqui que entra o pulo do gato.

Se pensarmos no DF como um estado, as RAs seriam os municípios. O DF elege um governador, mas não tem prefeitos. O governador é quem aponta os administradores de cada região. 

Falando assim, parece que são cidades diferentes, com contextos diferentes; mas, na prática, é tudo uma coisa só. Brasília, no caso, é parte da Região Administrativa chamada "Plano Piloto".

Mapa das Regiões Administrativas do Distrito Federal, mostrando Águas Claras.

Achei necessário explicar tudo isso porque na lista que fizemos das cidades que vamos visitar, elencamos "Brasília". Então como é que agora estou escrevendo um post sobre "Águas Claras"? É que, na verdade, meio que está tudo ligado. Logo, nós estamos em Brasília, mas não exatamente. Mês que vem estaremos lá. Por enquanto, vamos falar um pouco sobre Águas Claras.

Águas Claras


Como já dito, Águas Claras é uma das RAs que compõem o Distrito Federal. É uma região de muitos prédios, condomínios bonitos, shoppings, parques, tudo muito novo e, segundo me contaram, fruto de especulação imobiliária no passado. 

Em Águas Claras fica a residência oficial do Governador do DF. Engraçado isso. No post sobre morar em Boa Vista, comentei que a prefeita morava no bairro em que eu estava. Parece que só gosto de estar onde ficam as autoridades. 

De muitas formas, Águas Claras parece São Paulo no quesito vida urbana. É uma cidade extremamente vertical. Se olharmos no mapa, dá pra ver que a cidade não é extensa, parece até um bairro de uma cidade comum. Mas quando olhamos ao redor, nos deparamos com muitos prédios e todos eles cheios de moradores.

Vista urbana de Águas Claras, região administrativa de Brasília, com prédios residenciais.

Pontos positivos

Ah, gente. É um pouco difícil não se apaixonar por Águas Claras. Muito embora eu deva admitir que o primeiro ponto que quero trazer não tem tanto a ver com a cidade, mas com a região: o clima. Como falei em outro post, são as nossas experiências que, muitas vezes, vão determinar a nossa percepção da cidade. E, muitas vezes, essas experiências ocorrem por coisas totalmente fora do nosso controle. 

Digo tudo isso porque, quando chegamos na cidade, estava chovendo. De repente a umidade relativa do ar estava parecida com o que estávamos acostumados. Além disso, tivemos a grata surpresa de termos temperaturas que chegaram aos 17º C, do privilégio de dormir sem ventilador ou ar-condicionado, de olhar pela janela e ouvir a chuva caindo, as árvores balançando... 

É de respirar fundo e pensar... nossa... como seria morar num lugar assim?

Outra coisa é o urbanismo que a cidade tem. Explico: uma cidade cheia de prédios, com comércios, estacionamentos, etc., tinha tudo para ser uma selva de pedra. Mas não é o caso. Águas Claras é recheada de parques, é muito bem arborizada, os espaços verdes estão sempre próximos. É um lugar que dá vontade de caminhar, de dar uma volta na praça, de ir bem ali ver o que tem por lá.

É bom olhar pela janela do prédio e ver a cidade à distância. Dá gosto contemplar o céu, a chuva, sentir a brisa entrando pela janela, ver os carros passando nas ruas. Dá gosto simplesmente apreciar a cidade. Ah! Me surpreendeu a cidade ter tanta gente, mas mesmo assim ser calma. Não é barulhenta, dá pra trabalhar durante o dia tranquilo. Nesse quesito, nem parece ser uma grande cidade.

Além disso, descobri que tenho um fascínio por prédios. Acho-os imponentes, curiosos, com um quê de majestosos. Me impressiona passar ao lado deles e olhar pra cima até dar uma pequena vertigem. E o que eu mais gosto: ver os prédios à noite, cada janelinha com uma luz acesa, e imaginar que cada luz daquela é uma vida, uma história, uma pessoa tão complexa como eu e talvez ainda mais interessante. Não há nada mais fascinante pra mim do que a própria vida, a verdadeira magia deste mundo.

Vista de Águas Claras durante a estadia, mostrando o cotidiano da região.

Já que falei do prédio, vale a pena falar do condomínio em que nós ficamos. Novamente na categoria "coisas que estão meio fora do nosso controle", mas ainda assim usufruímos: duas piscinas, academia, lavanderia, dois espaços de festa com churrasqueira, sala de reuniões, espaço para co-working, vaga no estacionamento coberto, calibrador de pneu no estacionamento, e isso tudo sem falar na localização excelente, bem ao lado do Teatro da Caesb. É de respirar fundo e pensar... nossa... como seria morar num lugar assim?

Dois últimos pontos antes de finalizar essa seção. Um, é que a conectividade de Águas Claras dentro do Distrito Federal é muito boa. Quero dizer que ela está próxima de tudo. Não só a cidade tem de tudo um pouco, mas também está do lado de Taguatinga (uma cidade super comercial por excelência) e do lado do Plano Piloto, onde se tem acesso a muita coisa, além do aeroporto. Essa localização estratégica se provou ser bem útil em mais de uma ocasião.

O outro, é que chegamos à conclusão de que, se decidirmos morar em Águas Claras, teremos boas igrejas nos arredores onde valeria a pena congregar. Nesse mês, fomos quase todas as vezes à 1ª Igreja Presbiteriana de Taguatinga e tivemos bons momentos com os irmãos ali.

Pontos negativos


Bom, falando do que não gostei, acho que a primeira coisa seria o trânsito. Isso não nos afetou tanto porque trabalho de casa e saímos só pra ir à igreja, supermercado ou passear; mas é consenso entre moradores e habitantes da região de que o trânsito de Águas Claras não é dos melhores.

Acontece o seguinte, Águas Claras tem duas vias principais de escoamento, cada uma com três faixas... e é só. Imagine que cada prédio desse tem uns 20 andares, com 5 apartamentos em cada andar. Considere também que talvez alguns desses apartamentos tenham mais de um carro. 

Agora junte tudo isso na seguinte equação: todo mundo tem que sair às 7 da manhã pra chegar no trabalho — ao mesmo tempo. Quando chove, então é que o negócio pega, porque o trânsito que já é meio lento fica mais lento ainda. Peguei um Uber uma vez que disse que, quando começa a chover, ele já roda pra Águas Claras, porque o valor da corrida sempre fica mais caro. 

Coloquei o custo de vida nessa categoria, mas na verdade eu deveria considerá-lo como neutro. É que tem coisas que são mais caras e outras que são mais baratas, aí depende bastante do consumo. 

Por um lado, os aluguéis e condomínios são razoáveis (pelo menos quando comparados com Boa Vista); por outro, sair pra comer em qualquer lugar sempre é bem caro. Por um lado, os custos de hortifruti são melhores; mas as proteínas são mais caras. Por um lado, consigo pedir coisas da internet a um preço muito barato e receber em dois dias; por outro, não consigo ir numa padaria que não seja gourmetizada e cara.

No geral, eu diria na verdade que o custo de vida aqui é mais barato que em Boa Vista. Primeiro que a conta de energia fica bem mais em conta. Segundo que enquanto a gasolina em Boa Vista estava R$ 6,70 quando saí, em Águas Claras eu paguei R$ 5,49 e R$ 5,99. Terceiro que o acesso a produtos na internet com frete grátis ou baixíssimo abre muito os horizontes.

A quem interessar, nossa tabela de custos está atualizada com os valores de Águas Claras.

Por fim, embora tenhamos encontrado um condomínio sensacional, creio que não tivemos a melhor das experiências com o apartamento. A Laryssa sentiu bastante dificuldade na ambientação, especialmente de uma cozinha pequena. Mas isso nós entendemos que foi uma exceção, porque foi o apartamento que conseguimos considerando a correria que foi sair de Boa Vista. Se tudo sair conforme o plano, os apartamentos nas próximas cidades terão mais espaço.

Foto da porta do apartamento em Águas Claras (DF)

Morando em Águas Claras


Enfim, creio que fica bem evidente que gostamos de Águas Claras. Mas será ela uma boa cidade para morar? Vou ponderar sobre isso apenas no fim da nossa estadia em Brasília, considerando também nossa experiência no Plano Piloto. 

Isso que nem falei do acesso à arte. É que embora Águas Claras tenha um teatro, escolas de música, dança, de teatro mesmo, etc, não chegamos a usufruir de nada diretamente na cidade. Na vez que fomos a um show de MPB ou a uma exposição no museu, ambas foram no Plano, apenas nos beneficiamos da conectividade que mencionei acima. 

Quem sabe o que o futuro nos aguarda? Acompanhe essa jornada que está só começando!
Ah, e se tiver interesse, toda sexta-feira eu posto fotos e vídeos da semana no nosso grupo de WhatsApp. Obrigado por todo o apoio!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Morando em Boa Vista/RR

Não sei se vou conseguir fazer diversos posts sobre as cidades. Afinal, dois meses é muito pouco para se conhecer um lugar de verdade (embora seja exatamente isso que faremos para escolher uma nova cidade para morar no Brasil rsrsrs). Boa Vista, porém, é um pouco diferente. 

Não só já fiz um post sobre Boa Vista e minha impressão geral sobre a cidade, mas, tendo morado quase minha vida inteira na cidade, posso tecer um ou outro comentário a mais sobre o local. Decidi fazer isso contando como foi viver em dois bairros da cidade; um mais ou menos central, de classe média, eu diria; e outro, um subúrbio planejado nas extremidades da cidade.

vista aérea do centro de Boa Vista, Roraima

#Mecejana


Nasci e cresci no Mecejana. Um bairro residencial adjacente ao centro da cidade. Foi nele que dei meus primeiros passos, que aprendi a explorar o mundo, que comecei a apreciar as coisas boas de Boa Vista. Quando a gente é criança, tudo tem um gosto diferente. De brincar na rua, de subir no pé de goiabeira, de passear de bicicleta no Parque Anauá. 

Na adolescência, comecei a ir além do bairro e entender as vantagens de se estar próximo ao Centro de Boa Vista. Por exemplo, era com frequência que eu ia de bicicleta para a Biblioteca Pública, o lugar que despertou meu gosto pela leitura. Gostava de passear pelo Centro também, apreciar a beleza do projeto urbanístico radial, de passear debaixo das árvores e sentir o alívio que elas proporcionavam. 

O Centro de Boa Vista realmente tem uns lugares bem diferentes, umas ilhas de beleza no meio do caos do calor e do trânsito. Tem uma sumaúma enorme que eu gostava de admirar. Verdade seja dita, meu amor por árvores veio de apreciar as árvores de Boa Vista. E tudo isso eu conseguia admirar porque o Mecejana era próximo e me proporcionava um bom acesso.

No início da vida adulta, consegui fazer cursinho no Centro, trabalhar no Canarinho e estudar na UFRR, tudo a poucos minutos de distância. Como dá pra ver, o Mecejana em si é realmente um bairro residencial, com alguns supermercados, padarias e farmácias; mas a vida mesmo acontece fora dele. É um ponto bem estratégico e confortável em Boa Vista. 

De modo geral, o bairro é tranquilo, mas já não é tão seguro quanto costumava ser. Alguns anos antes de me mudar, entraram na casa dos meus pais e fizeram uma limpa. E o pior: com minha irmã dentro e sozinha. Infelizmente, Boa Vista de modo geral já não é mais tão segura. Embora valha a pena citar que esse foi um único incidente em mais de 30 anos em que meus pais moram no bairro.

mapa com os bairros de Boa Vista, Roraima

#Cidade Satélite


Quando casamos, rodamos Boa Vista atrás de um lugar para morar. Eu não ganhava o suficiente pra morar num bairro nobre ou mesmo perto do Centro. Restaram algumas opções nas periferias; mas quando eu vi o Cidade Satélite, já sabia que era ali que iríamos morar.

As pessoas dizem, acertadamente, que o Cidade Satélite é uma miniatura de Boa Vista dentro da própria cidade. É um bairro que tem tudo: supermercado, posto de gasolina, farmácia, lanches, praças, academias, lojas e até um posto de saúde próprio. É o tipo de lugar de que você só precisa sair mesmo para trabalhar.

Trata-se de um dos pouquíssimos e raros bairros planejados de Boa Vista. As ruas têm esgoto, o meio-fio tem florzinha plantada, a iluminação está sempre em dia e o asfalto é bem cuidado. Talvez (e apenas talvez) o fato de que a ex-prefeita more no fim do bairro tenha alguma influência nisso. Mas talvez apenas. Estou só conjecturando.

O Cidade Satélite representa uma nova etapa da nossa vida. Logo depois que casamos, nos mudamos para o Satélite e não saímos mais (até agora). Foram dez anos ali, apreciando o pôr do sol nas ruas amplas, frequentando academia, saindo pra tomar sorvete depois de um passeio na praça. Dez anos com bons vizinhos, onde crianças brincam nas ruas e o dono do churrasquinho da esquina já conhece a gente e já sabe nosso pedido favorito. O Satélite é uma espécie de sonho idílico no meio da loucura de Boa Vista. Um refúgio suburbano na zona da cidade onde praticamente todos os outros bairros são frutos de invasão. 

Creio que o único defeito do bairro (me perdoem por falar assim), foi a construção de um conjunto habitacional bem no fim dele, o famoso Vila Jardim. A prefeitura decidiu por remover uma "favela" próxima a um bairro nobre de Boa Vista e mover todo mundo para o Vila. Aí deu no que deu. Nossa casa foi assaltada duas vezes (em 2017 e 2018); mas depois que instalaram um batalhão da polícia no complexo do Vila, nunca mais tivemos problemas. 

Depois que nos mudamos pro Satélite, coisa rara era ir ao Centro para resolver alguma coisa. Se o bairro não tinha, as redondezas se desenvolveram tanto nos últimos anos que tínhamos tudo perto. Até o maior shopping da cidade estava perto. Honestamente, depois que passei a trabalhar remotamente, só saía do bairro para ir à igreja. Se um dia voltarmos, vou batalhar para abrimos uma congregação presbiteriana no bairro e aí não saio mais dele pra nada.

Um último adendo: eu trabalho de casa. Muita gente talvez não goste do Satélite porque ele está mais longe do Centro ou dos seus locais de trabalho. O bairro em si é muito bom, mas a dinâmica do dia a dia varia conforme a pessoa. Porém, vale ressaltar que em Boa Vista, "longe" é pegar 25 minutos de trânsito — o que, em qualquer outra capital, é o mesmo que morar do lado do trabalho. 

#Notas finais


Boa Vista, apesar de tudo, tem muito potencial para ser uma boa cidade para se morar. Não tenho como negar que vivi bons momentos nela. Foi o lugar que Deus me deu para nescer e crescer. Inegavelmente, é uma cidade que vai deixar saudade, e que eu não me importaria de visitar novamente no futuro. É muito possível dizer que se tem boa qualidade de vida em Boa Vista. Aliás, a cidade tem algo muito forte a seu favor: o céu e o pôr do sol. Acho que não conseguiria morar numa cidade que não tenha um pôr do sol bonito.

Enfim, essas foram algumas impressões que achei interessante registrar sobre a cidade, partindo, claro, do ponto de vista de quem teve uma experiência própria com a cidade. Me pergunto se as pessoas que moram em outros bairros talvez enxerguem uma Boa Vista bem diferente da que conheci. Não sei, mas ficaria curioso em descobrir.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Boa Vista/RR é uma cidade boa para morar?

Bom, a ideia desse post não é apresentar informações enciclopédicas sobre Boa Vista, capital de Roraima. Isso aí a Wikipédia já faz muito bem. Na verdade, este texto faz parte de uma jornada maior  onde minha esposa e eu visitamos cidades do Brasil para decidir onde viver.

O que quero aqui é apresentar a minha impressão sobre a cidade e como é viver em Boa Vista no dia a dia. Destaquei o termo na frase anterior, porque é preciso deixar bem claro que esta é a minha percepção — que pode ser bem diferente de outros moradores daqui. Toda opinião sobre uma cidade é influenciada pela sua moradia, sua renda, seus contatos, etc., então tenham isso em mente.

Sendo bem direto, acho que minha resposta deveria ser: em partes.

Vista aérea de Boa Vista, capital de Roraima

#Pontos positivos


Boa Vista tem a seu favor muitos fatores. O trânsito, por exemplo, deve ser um dos mais tranquilos de capitais do Brasil. É possível cruzar a cidade de ponta a ponta em uns 40 minutos. Isso não significa, porém, que seja dos mais seguros. 

O índice de acidentes e mortes no trânsito é desproporcionalmente alto. Não lembro qual foi o ano, mas uma vez Boa Vista ficou em primeiro lugar no índice de morte de motociclistas por acidentes de trânsito. Como Boa Vista tem um aspecto muito forte de cidade do interior, mesmo sendo capital, muita gente ainda dirige e se comporta como se estivesse dirigindo no interior. 

Embora tenha mudado bastante, Boa Vista ainda é um local seguro para se morar. As crianças brincam na rua, as pessoas saem pra caminhar com o celular na mão, via de regra, é possível ficar até altas horas na rua sem precisar ter medo. Tendo dito isso, todo mundo ainda tem cerca elétrica, sistema de alarme, câmeras, etc. Como falei, tem mudado, especialmente em bairros mais periféricos, mas ainda é bem melhor que a maioria das capitais. Haverá quem diga que piorou muito depois da migração venezuelana, mas não quero entrar nesse mérito.

Um ponto de que talvez muitos discordem é que, dentro do seu contexto, Boa Vista é uma cidade limpa. Há quem critique que as gestões municipais acostumaram o povo com uma higienização superficial da cidade sem resolver problemas maiores; mas tenho que concordar que a cidade é bonita, com algumas ruas largas na área central, enfeites de Natal e grandes festas trazem charme à cidade. 

Vou citar aqui os arredores da cidade, mas numa categoria neutra, porque isso tem mais a ver com Roraima do que com Boa Vista. Me refiro claro aos sítios, banhos, igarapés, e turismo ecológico de modo geral. Definitivamente não é o meu tipo e nem faço questão,  mas sei que pra alguns é a meta de vida em ter acesso a coisas assim tão perto da cidade (em 20-30 min você já tem acesso a muita coisa, sem falar das cidades vizinhas ou do Monte Roraima na Venezuela).

Cenário de Boa Vista ao entardecer

#Pontos negativos


Os pontos negativos pra mim são três. Primeiro, o clima. Enquanto pra alguns isso vai parecer besteira, pra mim tem se tornado um grande fator decisivo. Boa Vista é uma cidade que faz 30º às 7 da manhã (não é exagero). É uma cidade que às 7 da noite está 33º, que às 9 da noite desce pra 30º, e lá pelas duas da manhã oscila entre 28º e 29º. Isso sem falar meio-dia, quando saio da academia e o termômetro do carro está marcando 45º (em média oscila entre 43º e 47-49º).

Uma coisa que abriu nossos olhos é perceber como vivemos à mercê do ar-condicionado. Se me chamam pra ir numa pizzaria e não tem ar-condicionado, eu já hesito, porque sei que vai ser desconfortável. Nossa conta de energia é altíssima porque é simplesmente impossível você trabalhar de casa sem o ar-condicionado. Aqui é muito comum encontrar casas que não têm nem reboco, mas têm ar-condicionado.

Acho horrível não ter a liberdade de sair a pé às 9 da manhã sem arriscar uma insolação, de cancelar uma caminhada vespertina porque o dia está absurdo de quente e abafado. É bem verdade que no inverno (período de chuvas) a temperatura fica excelente. Se Boa Vista tivesse o ano todo aquela temperatura que tem naqueles 4 meses, eu não me mudaria. Infelizmente, não está nem perto de ser o caso. É triste ver como isso afeta a nossa qualidade de vida em Boa Vista.

O segundo ponto é a acessibilidade. É meme conhecido no Brasil o "frete grátis, exceto regiões Norte e Nordeste". Isso ganha proporções maiores numa cidade cuja única saída de carro para um centro é para Manaus (outro lugar péssimo), numa rodovia que todo ano precisa de reforma, numa viagem que dura em média 8-10h de carro e 10-12h de ônibus. Uma cidade cuja média de uma passagem aérea é R$ 2000 e com poucas opções de voo ainda. 

É sempre muito difícil e muito caro sair de Boa Vista. As coisas demoram pra chegar, o frete via de regra é mais caro que o produto, e sinto que muita gente ainda está presa na cidade justamente porque é bem difícil arranjar os recursos pra sair dela. 

Além disso, o isolamento leva Boa Vista e até mesmo Roraima a umas situações absurdas. As faltas de energia e água não são tão constantes, mas quando acontecem, se prepare para enfrentar o calor sem nada para ajudar. Nem adianta esperar pela noite, porque não vai ficar mais ameno. 

Uma outra forma que isso se manifesta na cidade são os péssimos serviços. Boa Vista é muito, muito ruim de serviço. Se você estiver precisando de algum conserto, uma impressão, um item pelo qual você quer pagar, ainda assim vai parecer que você está fazendo um favor para a pessoa. Isto é, quando a pessoa se dá ao luxo de lhe atender. Converse com qualquer um que mora em Boa Vista e todo mundo vai ter uma história de como queria pagar caro pra resolver um problema e ainda assim o prestador de serviço o deixou na mão. A impressão que dá é que o povo não quer ganhar dinheiro.

Outra coisa: antes da Starlink, quando caía a internet, caía no estado de Roraima inteiro. Não estou exagerando. Há somente um provedor de fibra ótica (Oi) e quando rompe um fio, o estado inteiro fica sem internet, até as redes móveis param de funcionar. Quem depende da internet pra trabalhar nunca vai conseguir ter paz ou tranquilidade, porque é sempre instável.

O terceiro ponto me é mais particular e diz respeito ao baixo acesso às artes. Por mais que tenhamos um bom teatro e uma orquestra que toca com alguma frequência, ainda são bem poucos os movimentos artísticos em geral (pelo menos se comparados com as outras cidades da nossa lista). Não se tem uma cultura de saraus, os leitores são poucos, e a arte predominante na cidade são os forrós e sertanejos (e nem são os raízes, mas os de pior qualidade). 

Pra quem é criativo, isso vai definhando a gente devagar, sabe? Vai esvaindo da gente a vontade de criar, de fazer, porque sabe que o projeto não vai prosperar, por mais que você se dedique. É só pra deixar claro, está tudo bem a população não gostar disso, ok? Ninguém é obrigado a preferir Tchaikovsky ao Remela de Gato. É só que, pra mim, isso pesa muito.

Amanhecer quente típico de Boa Vista

#Conclusão


Em suma, Boa Vista é uma cidade boa para se morar? Olha, em partes sim, em outras absolutamente não. Se você não se importar com o clima, acho que vai gostar muito daqui. É uma realidade de capital que nenhuma outra tem, parece de fato uma cidade do interior. Se conseguir morar num lugar bom (como eu consegui — falarei sobre isso no próximo post), vai ter tudo perto e uma vida relativamente calma e tranquila. Mas se a calmaria prolongada for um problema, então já não posso recomendar.

De qualquer forma, deixo pra você decidir. Esse é só um dos lugares por onde estamos passando nessa jornada. Aliás, se quiser entender melhor por que estamos fazendo isso e quais cidades ainda estão no caminho, explico tudo no post de apresentação do projeto.

Vamos ali dar uma volta.
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