sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Joinville é uma cidade boa para morar?

#Introdução


Ok, vamos lá. Foram dois meses em Joinville. Chegamos no fim de Junho e estamos saindo em meados de Agosto. O certo a fazer agora seria responder à pergunta do título do post, como faço em todos os outros. Mas dessa vez vou responder de um modo diferente.

Joinville/SC é uma cidade boa para morar? Numa escala de 1 a 5, eu daria a nota 2 para Joinville. Ou seja, não é de todo ruim para morar, mas está abaixo da média — para fins da nossa viagem! 

Calma, deixa eu explicar.

Vista do centro de Joinville/SC ao entardecer, com prédios e o céu iluminado pelo pôr do sol.


#PONTOS POSITIVOS


A nossa viagem tem quatro critérios bem estabelecidos — e provavelmente vamos adicionar um quinto antes da nossa escolha final. Estes critérios estão elencados em ordem de prioridade. Na prática, isso significa que se um lugar for excelente no critério 3, mas não for bom no critério 2, então esse lugar já perde pontos pra gente. Se ainda não viram o post, sugiro que deem uma lida, é coisa rápida. 

Bom, pra começar pelos pontos positivos da cidade, acho que ela se destaca pela beleza. Dá gosto de passear nas ruas e se deparar com uma autêntica arquitetura teuto-brasileira. Não é só diferente, é bonito mesmo. É olhar pras casas, pros prédios, e imaginar como deve ser morar ali. Joinville surpreende em vários momentos pela arquitetura.

Uma outra coisa que me pareceu bem clara é a questão da segurança. Estávamos hospedados no centro da cidade, lugar que, via de regra, não é muito aconselhável andar à noite em cidade alguma. Porém, pra nossa surpresa, o centro se provou ser bem seguro e até movimentado. Todo mundo andando até tarde, com celular na mão, tudo muito tranquilo. 

Talvez o exemplo mais claro da segurança tenha sido quando saímos com dois amigos para uma cafeteria no centro. Eles foram de moto e nos encontramos lá. Ao sair, nos despedimos e eles foram pra moto: eles tinham deixado os capacetes na moto. No lado de fora da cafeteria. No estacionamento que era apenas a calçada da rua. 

Também apreciamos muito a cultura do silêncio. Mesmo estando no centro, às 22:30 tudo parava. Os barzinhos com música ao vivo fechavam, as ruas ficavam tranquilas, e dormir em paz era fácil. Isso se deve, em grande parte, à cultura industrial da cidade. Muita gente tem que acordar cedo, porque a fábrica não perdoa. Isso ficou bem enraizado na cidade. 

Nenhum dos pontos acima é parte dos nossos critérios; são apenas bônus. Mas no quesito conectividade, Joinville está numa posição privilegiada. Está perto de Curitiba, de Florianópolis, de várias cidades próximas e com estradas boas que possibilitam viajar tranquilo. A cidade também conta com aeroporto. Nesse ponto, creio que a única coisa ruim seria o trânsito em horário de pico — mas, honestamente, que cidade não tem trânsito ruim nesse horário? De modo geral, esse ponto foi bom.

E o critério em que Joinville se destaca muito, mas muito mesmo, é o acesso à arte. A cidade tem o maior Festival de Dança do mundo, comprovado pelo Guinness! E veja só que interessante: estávamos na cidade bem na época em que ele aconteceu. Foi realmente um privilégio ter acesso à arte de alta qualidade bem na porta do nosso apartamento. 

Além disso, a cidade é parte do circuito de orquestras e conta com escolas de formação de base inigualáveis. Gente, já cheguei a estudar e viver um pouco de música no exterior em mais de uma ocasião e posso dizer com categoria que o que encontramos em Joinville é coisa de primeiro mundo. É coisa de músicos profissionais de outros estados brasileiros verem e ficarem admirados.

Então, nos critérios 3 e 4 elencados por nós para nossa viagem, Joinville está muito bem na foto. 

Praça Nereu Ramos (Joinville/SC). Vista noturna do centro de Joinville/SC, com prédios iluminados e céu encoberto.

#PONTOS NEGATIVOS


Bom, vamos lá. Provavelmente é esperado que eu coloque o clima como ponto negativo, mas talvez não pelos motivos que a maioria pensa. É que quando a gente fala do Sul, logo já temos uma imagem formada: frio! Mas não foi exatamente esse nosso problema com o clima em Joinville.

Nós pegamos só uma ou duas semanas de frio intenso, daquele em que a gente acorda e o termômetro marca 8 °C e a máxima do dia é perto de 15 °C. Na maior parte do tempo em que estivemos aqui, as mínimas eram entre 14 e 16 °C, enquanto as máximas batiam quase 30 °C. No fim das contas, foi rápido se acostumar e não sofremos tanto quanto achávamos que iríamos. O problema mesmo foi ser surpreendido pela umidade. 

Joinville está numa região de manguezais, perto do mar, e tem um rio que corta a cidade. A umidade aqui, durante vários dias, estava na casa dos 90%! Não eram raros dias em que batia 99%. Inclusive, os locais têm uma piada interna sobre isso. Eles dizem que o nome da cidade não é "Joinville" e sim "Chuville", porque toda semana chove. Além disso, a proximidade da cidade com a serra torna a cidade um pouco abafada quando a umidade está alta.

Essa umidade aumentou bastante nosso desconforto térmico e até mesmo as nossas questões respiratórias. Além disso, secar roupa na cidade é um sofrimento. A princípio achávamos que isso era um problema só do nosso apartamento, mas conversamos com outras pessoas e várias delas tiveram a mesma reclamação. Ao que parece, ter uma lava-e-seca é bem essencial para a cidade. Em certa ocasião, tivemos até que pagar uma secadora profissional pra ajudar com essa questão.

O outro ponto que mais pegou, e fico até receoso de escrever sobre isso, foi a questão das igrejas. Não posso ser injusto a ponto de dizer que não existam boas Igrejas Presbiterianas na cidade, mas a gradação do que se entende por "boas" é que vai variar. Perdoem-me, mas vou precisar escrever um bocadinho sobre isso, pra deixar tudo bem claro.

Para mim, a regra nº 1 pra se considerar uma Igreja boa é que ela seja fiel à pregação da Bíblia. E isso nós encontramos. A segunda coisa é que a igreja exerça com fidelidade os outros meios de graça: oração, execução dos sacramentos (Ceia e batismo), e comunhão. Aí já não posso dizer que encontrei tudo isso.

Visitamos três igrejas presbiterianas diferentes, e optamos por ficar mais tempo em uma. A pregação é muito boa, realmente é. São mensagens que edificam, que são fiéis à Escritura. O problema maior é um que tem sido patente em muitas outras igrejas presbiterianas que visitamos: o acolhimento. 

A princípio, eu achei que isso era um problema do Sul, das pessoas serem mais frias, fechadas. E até chega a ser, em certa medida, mas não totalmente.

Frequentamos uma igreja por dois meses, e acho que se dez pessoas sabem o nosso nome nela, deve ser muito. Nós íamos ao culto da manhã, ficávamos para a EBD, íamos ao culto da noite, íamos ao culto da semana, e quando ficávamos sabendo de outras programações, nós íamos também. 

Não é que não houve acolhimento nenhum, mas é que ele é muito tímido, sem intencionalidade, e demorou bastante pra acontecer; quando aconteceu, ainda foi pontual.

Enquanto houve igrejas que frequentamos em outra cidade que, no primeiro domingo, já parecia que éramos de casa; em Joinville frequentamos por dois meses e ainda parecia que não éramos parte da família, mas apenas visitantes.

Há que se considerar a cultura do local, das pessoas serem meio fechadas mesmo? Sim, mas enquanto isso explica, não justifica — e nem explica totalmente. Veja, uma boa igreja vai ser sempre influenciada pela cultura da sua época, é natural. Mas não deveria nunca ser moldada por ela. Se a Escritura nos ensina a sermos acolhedores, tanto faz o país, a cultura, as tradições: nós devemos ser acolhedores. 

E aí, veja que coisa. Em Joinville encontramos um amigo de longa longa data, que por acaso mora na cidade e também ficou sabendo que estaríamos lá. Me convidou para visitar um pequeno grupo de sua igreja (que não é presbiteriana). Eu aceitei o convite. Chegando lá, me surpreendi muito em ver um grupo com pouca ou nenhuma leitura bíblica... mas muito acolhimento. 

Pra mim não faz sentido que pessoas que eu encontrei uma única vez estivessem mais interessadas em criar laços do que aquelas que eu via todo domingo. Foi aí que me toquei de que Joinville não sofre com falta de acolhimento... a igreja presbiteriana, sim. 

Na nossa experiência em Joinville, acontece o seguinte: o joinvilense que é acolhedor é muito acolhedor; aquele que não é acolhedor, não é nada acolhedor. É uma cidade de 8 ou 80. A igreja não deveria ser assim. 

E o que mais me assusta é que não tenho certeza se a igreja sabe disso, se ela entende a necessidade que tem de amadurecer nesse sentido. A pregação da Palavra é boa e edificante, mas é preciso ser maduro por completo, não só em um aspecto. 

Não foi a primeira vez que enfrentamos isso. Sofremos isso na pele também em Belo Horizonte. Mas, lá, pelo menos encontramos um oásis que nos deu fôlego. Em Joinville, por outro lado, parece que não havia respiro. 

Então surge o dilema: se eu sei de tudo isso e vejo que a coisa não está dando muito certo, não seria minha responsabilidade trazer isso à tona? A primeira coisa que considero é que eu não posso achar que sou um super-herói salvador da pátria. Cristo é o líder e sustentador da igreja, não eu. Ao mesmo tempo, "[...] aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando." (Tg. 4:17). Foi por isso que tirei um tempo e resolvi conversar com o pastor da igreja a respeito disso, e fiquei muito feliz em saber que essa é uma luta que ele também vê.

A IPB em Joinville tem irmãos fiéis, gente que ama Deus, e tenho certeza, que também se incomoda com o mesmo que me incomoda. Vejo que a Igreja Presbiteriana tem muito a crescer em Joinville, e também acho que há servos fiéis lutando para que isso aconteça. Acho que vai levar uns 20 ou 30 anos até ver essas igrejas sólidas. Que Deus tenha misericórdia desses irmãos e os fortaleça. O trabalho para Deus nunca é vão.

Vista da praça Nereu Ramos, em Joinville/SC

#Conclusão


Joinville é uma cidade boa para morar? Olha, de modo geral, eu até acho que é. Se a gente pensar só em termos de qualidade de vida (acesso à saúde, educação, segurança, etc.), creio que ela está muito superior a várias outras cidades de mesmo porte no Brasil. O Sul, de fato, parece muito com o Primeiro Mundo algumas vezes.

Mas, para fins da nossa viagem, Joinville deixou muito a desejar em alguns critérios elencados por nós. E infelizmente justamente nos dois critérios que mais nos importam. Novamente, isso não quer dizer que não aproveitamos nada da cidade, ou que ela não tenha nada de bom a oferecer, é só o que faz mais sentido pra gente. 

De novo — isto não é sobre as boas pessoas que encontramos e marcaram nosso caminho. É um comentário sistêmico, sobre Joinville como um todo.

Enfim, agora inauguramos mais um capítulo da nossa viagem — e já é o penúltimo! Logo mais não teremos opção senão parar tudo e encarar o momento derradeiro: escolher onde vamos morar. 

Mas, calma, que ainda tem chão (e bote chão nisso). 
Se ainda não viu, temos comentários sobre todas as cidades pelas quais já passamos: Boa Vista, Brasília, Belo Horizonte, e São José dos Campos. Vale a pena conferir.
Muito obrigado por acompanhar a nossa peregrinação!

A próxima parada é Bento Gonçalves. 
Nos vemos por lá. 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Histórias peregrinas — São José dos Campos

Lá vou eu com minhas contradições de novo. Como é que eu escrevo que São José dos Campos não me fascina, mas agora venho aqui contar histórias que me fascinam e uso a cidade como referência? Não vou nem tentar me justificar, deve ser falha de caráter mesmo. Não tem outra explicação. 

Mas... (e lá vou eu tentar me justificar — tá vendo? É contradição atrás de contradição!), mas... é que talvez essas histórias não sejam sobre a cidade. Assim como nas histórias de Belo Horizonte, essas histórias são sobre pessoas. Na verdade, não chegam nem a ser histórias, são apenas dois momentos curtos, mas bem significativos. Mas são sobre pessoas.

Nessas narrativas, vai ficar bem claro que, enquanto a cidade de São José dos Campos talvez não tenha me fascinado tanto, o mesmo não posso dizer das pessoas que encontrei por lá. Enfim, vamos aos dois momentos.

Vista panorâmica de São José dos Campos/SP, com prédios residenciais, avenida de múltiplas pistas e área verde ao redor.

Ambas aconteceram no mesmo dia e no mesmo local. Foi na Igreja Presbiteriana no Jardim Sul, no Dia das Mães. 

Naquela manhã, a igreja organizou um café da manhã especial de comemoração. Mesmo estando há pouco tempo na igreja, nós participamos e levamos nossa contribuição também. Foi aquela "santa muvuca". O salão cheio de gente, a mesa farta servida, todo mundo se confraternizando e aproveitando a comida boa.

Laryssa e eu sentamos numa mesa com uns amigos da igreja que tínhamos no dia anterior; depois juntaram mais uns, e mais alguns. De repente estávamos numa roda, conversando sobre amenidades e desfrutando da presença uns dos outros.

O pastor da igreja passeava no salão, fazendo a social. Cumprimentava as mães, as crianças, os homens, falava com todos. Seguindo seu itinerário, ele eventualmente chegou à nossa roda.

Nos cumprimentou, falou com todos e, de repente, percebeu que estávamos todos juntos, que a roda estava formada, e que todos ali pareciam muito à vontade. Ele sorriu e disse:

— Vocês se encontraram, né?

Eu olhei ao redor, vi os sorrisos, os jeitos, as personalidades únicas de cada um que estava ali. Me virei pro pastor e respondi:

— É — eu balancei a cabeça. — A gente se encontrou. 


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Naquele mesmo dia, à noite, depois do culto, houve uma segunda confraternização. É que o café da manhã havia sido tão abundante, que sobrou até pra um lanchinho pela noite.

Como certamente não havia sobrado tanto assim, os homens deixaram pra ir ao salão só depois que as mulheres e crianças tivessem ido também. Eu, particularmente, fui na certeza de que não teria sobrado muita coisa — e estava tudo bem.

Fiquei conversando com aquele povo acolhedor e finalmente desci para o salão. Lembro de ir à mesa dos quitutes e pegar algumas coisas. Mas de repente me vi perdido.

Nós havíamos chegado na igreja fazia umas duas semanas. Me deparei comigo mesmo parado, segurando um prato de comida, um copo de refrigerante, e sem saber pra onde ir, com quem falar. Olhei ao redor procurando a Laryssa e não a encontrei. Foi nesse momento que ouvi alguém falar:

— Gabriel, aqui!

Me virei e vi uma mesa, com aquele mesmo grupo de amigos. Eles estavam lá e a moça que me chamou apontou pra uma cadeira.

— Tem lugar pra você aqui — ela disse.

Eu me aproximei da mesa, e lá estavam eles e uma cadeira vazia. 
Eu sorri e sentei. 

Tinha lugar pra mim. 


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Enfim, foi o que falei. Se por um lado a cidade de São José dos Campos não me fascinou, eu certamente não posso dizer o mesmo das pessoas. E olha que esses relatos são só a ponta do iceberg, eles só começam a demonstrar como as pessoas daquela cidade são boas. 

Isso me fascina.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Histórias peregrinas — Belo Horizonte

Seguindo a série de histórias sobre coisas que me fascinam, a princípio, quem leu o que eu comentei sobre Belo Horizonte, talvez esteja até surpreso de eu mencionar a cidade aqui. A impressão pode até ser que vou comentar que BH me impactou negativamente, de ver a indiferença e o caos da cidade. Essas não são histórias que fascinam. Elas assustam, é diferente. Mas não é disso que quero falar. 

Belo Horizonte me trouxe duas histórias curtas, mas interessantes. Ouvi-as de dois pastores de igrejas diferentes, mas ambas impactantes o suficiente para ficarem marcadas na memória. Vamos a elas.

Vista urbana de Belo Horizonte, cenário das histórias peregrinas compartilhadas neste post

#Pastor 1

Na verdade, essa história nem é sobre o pastor, mas foi ele quem contou. 

O pastor conta que há algumas décadas, ele se mudou para Belo Horizonte a fim de cursar o seminário presbiteriano da cidade. Ser seminarista não é coisa fácil. É depender do sustento dos presbitérios e das igrejas para tentar se manter, enquanto segue uma rotina de estudos muito intensa, isso sem falar dos deveres que têm com as igrejas locais e as famílias. 

Por causa disso, o pastor conta que o sustento que ele tinha permitiu que ele se mudasse do interior para a capital e alugasse um apartamento num bairro bem distante do centro. Foi só quando ele chegou lá que descobriu que se tratava de uma favela. 

Ele foi na frente, carregando boa parte das coisas, e ficou aguardando a esposa chegar do interior com o resto da mudança.

Passado algum tempo, a digníssima saiu do interior, levada por seu irmão, cunhado do pastor. Eles seguiram rumo a BH e, chegando lá, ela passou o endereço onde deveria ser deixada para morar. Quanto mais o irmão dirigia, mais ele via o estado deplorável daquele bairro, mais ele se preocupava com onde estava deixando sua irmã.

A casa onde ela moraria era uma casa de um ou dois cômodos, teto baixo com telha de amianto, banheiro do lado de fora da casa. O irmão viu aquilo tudo e ficou horrorizado. Ele engatou a marcha ré.

— Você não vai ficar aqui de jeito nenhum! 

A esposa olhou para ele como uma fera e disse para ele, resoluta, apontando para a casa:

— Meu marido está aí. Você vai me deixar aqui sim, porque eu vou morar com ele. Se é aqui que meu marido está, é aqui que eu vou ficar.

E lá ela ficou.

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#Pastor 2

Essa é curta, mas bem marcante. O pastor contou-a no púlpito. 

Ele pregava sobre a importância de dar glórias a Deus em todas as situações. Se damos glória só nos momentos alegres, bom, até os incrédulos se alegram e são capazes de comemorar os bons momentos. Mas e os maus? Neles, Deus também está no controle e continua cuidando de nós, apesar de quaisquer circunstâncias. E ele contou uma história pra ilustrar o ponto.

Ele perdeu a mãe cedo, na adolescência, salvo engano. E ele lembra do dia em que isso aconteceu. Eles estavam em casa e receberam uma ligação do hospital. A mãe estava internada por algum motivo que não lembro agora. Só sei que eles foram pra lá.

Assim que chegaram, o médico chamou o pai do pastor para conversar, mas ele pediu para que falasse logo. O médico, todo cheio de modos, precisou contar que a esposa dele havia falecido. O médico precisou contar pro pai que a mãe das crianças havia partido.

Assim que o pai recebeu a notícia, a primeira coisa que fez, naquele momento de extrema dor e luto, foi dar glórias a Deus pela vida da esposa e por todos os momentos que passaram juntos, pela vida dela e porque Deus tinha cuidado dela até o fim. 

O pai deu glórias a Deus.
E o médico chorou.

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Eis algumas das histórias que me inspiram. Histórias simples, ouvidas quase por acaso, mas que permanecem na memória muito depois que a viagem termina. Talvez seja justamente isso que procuro quando conheço uma cidade nova: não os prédios, nem os monumentos, mas as pessoas e as histórias que elas carregam.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Histórias peregrinas — Brasília

No último post sobre São José dos Campos, mencionei que a cidade não me fascinou. Mas, ao mesmo tempo, fiquei me perguntando que sentimento era esse. Então fiz a pergunta natural: o que me fascina? A verdade é que isso não é tão claro pra mim. Resolvi então olhar pra trás e tentar responder a essa pergunta vendo as histórias que tenho para contar das cidades por que passei. Quem sabe isso ajude a lançar luz sobre a questão.

Vou contar as histórias na ordem das cidades. Assim, comecemos por Brasília.

Prédios residenciais em Águas Claras, Brasília, vistos do alto durante o dia

cheguei a comentar que Brasília me fascina. Ela é o que o Brasil poderia ser se fosse só um pouquinho mais organizado, é um lugar único e sem paralelos no Brasil (pelo menos do meu ponto de vista). A cidade encanta por vários motivos, mas uma das coisas de que mais gosto nela é o elemento humano. Cheguei a falar isso também no post sobre a cidade, mas quero falar um pouco mais sobre isso.

Certo dia, eu saí pra passear em Águas Claras. Era noite e o clima estava ótimo. A uns dois quarteirões do nosso prédio havia uma praça enorme, cercada de grandes prédios, cheia de verde e de vida. A praça estava lotada. Um grupo de pessoas jogava tênis, outros vôlei, na quadra de basquete se ouvia a bola quicando, na pista de skate as rodinhas cortavam o chão. Pessoas riam, conversavam, viviam.

Eu dei uma volta na praça, fingindo que estava caminhando. Tudo mentira. Eu estava observando. Vendo o casal que fazia piquenique na área verde, o pai que passeava com o carrinho de bebê enquanto a mãe fazia um cooper, a velhinha com sua roupa de academia e fazendo uma caminhada bem mais eficiente que a minha. E em tudo me fascinava. 

Foi também em Águas Claras que descobri que amo prédios. Vejo-os imponentes quando caminho ao lado deles, daquele jeito que nem dá pra olhar pra cima direito sem correr o risco de uma leve vertigem. Mas não são os prédios em si que me fascinam. Eles têm seu valor, mas, novamente é a vida. 

Sou fascinado por olhar pela janela e ver prédios e prédios, cada um cheio de várias janelinhas. Em uma das janelas, um homem senta no sofá e assiste à TV; em outra, uma mãe embala o bebê; já naquela, o casal de idosos reparte uma sopinha e alguém ri. Em outra, alguém chora. Em algumas as luzes são brancas, em outras amarelas, outras estão sem luzes acesas, mesmo tendo pessoas ali.

Isso não fascina vocês também? De ver aquela infinitude de histórias, cada uma tão complexa e tão cheia de importância quanto a outra. De passar pelo corredor do prédio e pensar que cada porta daquela é uma vida inteira, tão rica e tão única. 

Sair na rua e ver isso me fascina de um jeito que não sei explicar. Certo dia, eu resolvi acordar cedo pra caminhar naquela mesma praça. Havia poucas pessoas, mas uma cena me marcou. Um rapaz, todo de terno, com uma mochila cara nas costas. Estava bem arrumado, barba feita, sapato polido. Certamente alguém que trabalhava em alguma importante repartição pública da capital do Brasil. 

Ele sentou-se num banco de pedra da praça, o mesmo em que todos sentavam, talvez o mesmo em que eu mesmo havia sentado na noite anterior. Ali, ele pegou uma sacola simples, tirou o salgado barato de padaria, repousou o copinho de café no banco e devorou a comida, atrasado para o expediente que logo ia começar. 

Brasília é um retrato perigosamente fiel do Brasil, onde as aparências não revelam toda a história, apenas mascaram parte dela. E quanto mais penso nisso, mais me encanto. Acho que descobri que é observando outras pessoas que consigo aprender um pouquinho mais sobre mim. E isso me fascina.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

São José dos Campos é uma cidade boa para morar?

#Introdução

Meus caros, é até difícil de acreditar, mas já se passaram dois meses! Parece que foi ontem que chegamos em São José dos Campos e nos deparamos com tanta coisa interessante na cidade. Neste post, vamos falar um pouco das nossas impressões, guiados principalmente pela nossa lista de critérios.

Como sempre, vou responder à pergunta do post logo no começo: São José dos Campos é uma cidade boa pra morar? 

Não. Na verdade, é uma cidade ótima para morar!

Nascer do sol visto de um apartamento em São José dos Campos

#Pontos positivos


Acho que o primeiro impacto que tivemos logo na chegada foi ver como as pessoas são acolhedoras. No nosso prédio, na padaria, no mercadinho, no posto de gasolina. Não importa onde íamos, as pessoas se importavam, faziam questão de ajudar, eram gente como nós. 

Isso se traduziu (e muito!) na igreja. Frequentamos a Igreja Presbiteriana no Jardim Sul e tivemos um tempo fantástico ali. Parecia que já éramos da família. Nessa igreja fizemos amigos tão queridos que é um absurdo pensar que há dois meses nem nos conhecíamos. Toquei na orquestra da igreja, participamos numa aula com os adolescentes e aprendemos muito naquele lugar de modo geral. Provavelmente foi o ponto mais alto de São José dos Campos fácil fácil. 

Outra coisa que chamou a atenção, foi o acesso à arte. São José não é uma cidade grande, nem uma capital, mas a quantidade de atividade artística que essa cidade oferece é fora do comum! Não só assistimos a duas orquestras diferentes, como tínhamos acesso a feiras, saraus, cinema, festivais gastronômicos, e por aí vai. 

Além disso, ainda tive oportunidade de compor a Orquestra Comunitária de São José dos Campos e tocar dois concertos com eles. Isso, por si, já reforça a questão da receptividade que a cidade oferece. Foi a primeira vez que toquei com uma orquestra de novo em mais ou menos oito anos! Que privilégio fazer boa música.

Seguido nossa lista de critérios, quanto à conectividade, os próprios Joseenses são os primeiros a encher a boca pra dizer que São José está perto de tudo. Está a uma hora de São Paulo e do aeroporto de Guarulhos, uma hora da praia, uma hora da serra. E de fato está. No tempo em que estivemos aqui, fomos três vezes a São Paulo, simplesmente porque era muito fácil ir e aproveitar coisas boas por lá.

Além disso, o trânsito na cidade é excelente. Em São José, você chega a qualquer lugar em 15 minutos. Parece exagero, mas é isso mesmo. É como morar numa cidade do interior, tendo acesso a todas as facilidades de uma cidade grande. Ah! Preciso comentar sobre isso.

É que, pra mim, ou uma cidade é do interior ou ela é desenvolvida. Não existe uma com os dois ao mesmo tempo. Pelo menos era isso que eu achava. Veja abaixo uma foto que era a vista comum do nosso apartamento. E depois um zoom destacando alguns detalhes (perdoem a baixa resolução).

Vista de área verde em São José dos Campos observada de um apartamento residencial

Contraste entre área verde com cavalos e refinaria industrial em São José dos Campos

Na primeira foto com a seta vermelha, o que vocês veem é uma extensa área verde, com cavalos pastando. Na imagem não dá pra ver muito bem, mas via de regra sempre tem 3 ou 4 cavalos pastando. Já na outra foto com a seta vermelha, vocês veem exatamente a mesma paisagem, é a mesma vista, só que mais ao fundo tem algo amarelado quase branco no céu. É o fogo que escapa de uma das refinarias da Petrobrás. Uma única foto, dois mundos distintos, ambos em São José dos Campos.

Acho que é seguro dizer que São José é uma cidade muito avançada em diversos sentidos. Por exemplo, ela tem uma frota de ônibus 100% elétrica, as árvores da rua são todas catalogadas (sim! Dá pra escanear um QR-Code na árvore e acompanhar a evolução dela num site da prefeitura), as vagas de estacionamento na rua são catalogadas (no centro tem até placas digitais mostrando quantas vagas tem em cada rua), é nela que estão o ITA, a Embraer, a Boeing, e por aí vai. 

Além disso, o acesso à saúde é muito elogiado também. Algumas pessoas aqui falaram que nem precisam de plano de saúde, elas fazem tudo pelo SUS e o acesso é muito eficiente. A cidade, de modo geral, é bem organizada e a acessibilidade é boa. Por exemplo, fazíamos muita coisa a pé, porque estava perto e porque é bem seguro, de modo geral. 

Gente, e outra coisa. Meu Deus, como é barato e gostoso sair pra comer fora em São José! É um perigo! Quase eu coloco essa informação na categoria "Pontos negativos", porque o autocontrole vai ter que ser forte ou a dieta vai pro brejo.

Perto do nosso apartamento havia uma feira noturna, toda sexta-feira. Pois toda sexta-feira nós íamos nela. As coisas eram de extrema qualidade e o preço mais do que acessível! E isso não foi só lá, vimos isso se repetir em restaurantes, em comida fora (nossa! O Ifood mais barato que já encontrei na vida!), em coisas do dia a dia. 

Os preços de supermercado ainda não foram os melhores que encontramos na viagem. Acreditem se quiser, Brasília ainda está provando ter o mercado mais barato de todos! Mas também não achamos os preços exorbitantes; é aquela velha história de navegar entre os principais supermercados e aproveitar as promoções. Basta clicar e ver nossa tabela de custos pra ter uma ideia. 

Amanhecer em São José dos Campos mostrando neblina sobre a cidade e a região industrial ao fundo.

#Pontos negativos

Bom, nem tudo na vida são flores também, né? Por mais que vejamos coisas boas, também não podemos fechar os olhos praquelas que talvez sejam problemas ou desconfortos caso venhamos a morar aqui. De qualquer forma, São José não tem muitos pontos negativos.

O primeiro que vou mencionar aqui é o clima. Parece ser bem contraditório eu falar do clima já que, enquanto escrevo esse texto, o termômetro está marcando 16 °C. Mas é que, nessa viagem, a gente não pode pensar na temperatura da cidade somente no momento em que estamos morando nela, precisamos avaliar de uma perspectiva mais ampla.

Veja só, quando chegamos em São José já era começo do outono. Era para a temperatura estar caminhando para o frio. Porém, no nosso primeiro domingo, o termômetro do carro marcou 39 ºC. Tudo bem que essa não era a temperatura oficial, mas certamente era a sensação térmica. Semana passada, meados de junho, já praticamente às portas do inverno, teve um dia que a sensação térmica estava em 31 ºC. 

Tudo isso me fez pensar: "Gente, se perto do frio chega nessa temperatura... como será aqui no verão?" E, de fato, meus instintos estavam certos. Até mesmo os moradores reconhecem que no verão a temperatura fica bem desconfortável. Alguém na igreja comentou que perto do Natal do ano passado, a temperatura estava horrível. Por curiosidade, fui pesquisar no site do INMET. 

A temperatura oficial do dia 26/12/25 foi de mais de 37º C. E considerem que isso foi a temperatura registrada no termômetro do INMET, dificilmente localizado no centro urbano, provavelmente numa floresta em algum lugar. A sensação térmica na cidade deve ter passado de 40 ºC fácil. 

E aí eu fico com um pé atrás. Sair do calor pra ir pra outro calor... certamente não é algo que me agrada. Tudo bem que esse calor é temporário, coisa de dois ou três meses. Mas, ainda assim, é algo a se considerar e entender que talvez vá ser necessário ter ar-condicionado, por exemplo, e isso influencia nos gastos, no planejamento, etc. 

O segundo ponto negativo é uma besteira. É algo tão besta que tenho até vergonha de escrever aqui. Mas é que São José não me fascina. Argh, que terrível escrever isso. Mas infelizmente é a verdade. E eu me sinto tão injusto de me sentir assim, sabe? Tudo é tão bom, as pessoas, a cidade, as feirinhas, as orquestras... mas... sei lá, parece que falta algo. A sensação é que São José me parece ser uma cidade pra ficar confortável, não pra ser desafiado. 

Talvez eu esteja errado (e assim espero), tanto é que pra Laryssa essa cidade está no top do top. Mas parece que pra mim não rolou uma química, sabe? Aquele je ne sais quoi (leia-se: genecequá), o fascínio, o encanto. E aí eu fico me perguntando se preciso disso pra cidade ser boa, sabe? Tenho o direito de guiar essa decisão por um critério tão abstrato e subjetivo como esse? É bom estar lá, sim, de fato é muito bom... mas, sei lá, meio parece que não sei. Não sei. 

O que é isso que parece que faltou? 
Está faltando na cidade, ou está faltando em mim?

Vista noturna de prédios em São José dos Campos

#Conclusão

Bom, é necessário concluir que São José dos Campos é sim uma cidade muito muito boa para morar. Aqui o morador vai encontrar uma excelente qualidade de vida. Inclusive, em vários momentos percebi que morar em São José (e mesmo passear em São Paulo capital) é muito parecido com estar nos Estados Unidos, em vários aspectos.

Relendo esse texto, percebi como soou prático e meio frio. Ele não chega nem perto de fazer jus aos momentos sensacionais que tivemos em São José dos Campos, graças às pessoas incríveis que nós conhecemos, gente que dá pena de ter que dizer tchau. As pessoas realmente fizeram uma diferença muito grande na nossa estadia.

Mas, por enquanto é isso. Agora seguimos nossa jornada rumo a Joinville! Vamos para mares nunca antes navegados por nós e estamos animados pra ver o que encontraremos por lá!

Se quiser ler sobre as outras cidades por onde já passamos, basta dar uma olhada na página de boas-vindas do blog. Obrigado por acompanhar nossa peregrinação!

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Belo Horizonte é uma cidade boa para morar?

#Introdução

É isso aí, minha gente! Depois de dois meses morando em Belo Horizonte, creio que estamos aptos a responder à pergunta do título desse post. E como sabem, gosto de ser bem direto.

Belo Horizonte é uma cidade boa para morar? 
Não, não é.

Vem comigo que eu vou dizer o porquê.

Belo Horizonte em vista panorâmica do Mirante do Mangabeiras — como é morar na cidade

#Pontos positivos


Olha, eu vou falar uma coisa aqui pra vocês. Nosso tempo em Belo Horizonte foi um verdadeiro aprendizado. Fomos ensinados por Deus a buscar as coisas boas onde estivermos, mesmo que tudo pareça ruim. Digo isso porque foi um pouco difícil apontar os pontos positivos da cidade.

Lembrando dos critérios que elencamos para escolher uma cidade, Belo Horizonte falha em quase todos eles. A única exceção é o clima

Não posso negar que o clima aqui é bem agradável, talvez até mais do que em Brasília. Engraçado isso. O pessoal daqui acha Brasília "quente"! Mas é interessante notar que em Belo Horizonte pegamos temperaturas mais extremas que Brasília. Teve dia que fez 38ºC no horário de meio-dia. Mas, de modo geral, tivemos boas experiências com o clima. 

Um ponto positivo que consigo tirar da estadia aqui é que descobrimos o que nós definitivamente não gostamos numa cidade. Parece besteira, mas isso é bem importante. 

Quando começamos a viagem, tínhamos em mente o que queríamos, mas, até nos depararmos com algumas situações, ainda não era tão claro pra gente quais eram as coisas às quais diríamos: "Tá, isso aqui não tem como". É importante saber e estabelecer limites.

#Pontos negativos

Bom, vamos aqui ao que será o cerne desse post. Infelizmente são muitos pontos negativos, mas vou tentar agrupá-los de modo que não fique tão cansativo.

Pra começar, muito se fala que os mineiros são calorosos, afetivos, e, olha, talvez no interior de Minas Gerais isso até seja verdade. Mas em Belo Horizonte eu posso afirmar categoricamente que não são. Na verdade, Belo Horizonte é uma cidade marcada pela indiferença.

Na padaria, as atendentes não falam com você direito; no supermercado, elas nem levantam o rosto; na academia, a moça da recepção te ignora; no trânsito... ah... calma, que o trânsito vai ter uma seção própria. 

Infelizmente, as pessoas não se importam com as outras, de modo geral. E isso acaba até respingando nas igrejas. Vemos igrejas presbiterianas marcadas pela indiferença, pela falta de acolhimento, pelo total descuido com os de fora. Um pastor até me contou uma triste história, que certa vez uma pessoa chegou pra ele e falou: "Eu gosto dessa igreja porque aqui ninguém fala comigo. Eu entro e vou embora, sem ninguém se meter na minha vida." Triste. Gente que não entendeu o que é ser igreja.

Isso não significa que não haja igrejas boas. Encontramos aqui a Igreja Presbiteriana Cidade Nova, que foi um bálsamo pra gente. São pessoas acolhedoras, que se importam com os outros, que vivem e pregam a boa palavra de Cristo. Mas ficou muito evidente pra nós que essa igreja é uma exceção, não a regra. Belo Horizonte sofre com a carência de boas igrejas.

E só mais um exemplo da indiferença: um irmão da igreja estava num parque com seus três filhos. Um dos filhos caiu, bateu a cabeça no chão e começou a sangrar. O pai se viu numa situação complicada, tendo de administrar duas crianças, enquanto socorria o outro com sangue saindo da cabeça. Ninguém o ajudou, ninguém se prontificou. Na verdade, alguns até ficaram apenas incomodados porque aquilo estava atrapalhando a diversão das outras crianças. 

O trânsito, por sua vez, é a peça fundamental para todos os outros problemas de Belo Horizonte. É simplesmente um trânsito caótico, onde as pessoas não se respeitam, onde tudo vive engarrafado, onde sair pra passear é sempre estressante, porque você não sabe se vai sofrer um acidente ou não, se vai pegar uma rua alagada ou não, é sempre um grande esforço encarar a rua. A gente se sente preso.

Some-se a isso que a cidade não tem estacionamento. Não adianta você sair pra visitar um museu, porque quando você chegar lá, simplesmente não tem onde estacionar. Não é que não tem vaga. É que não tem onde parar o carro. Você vai precisar pegar um estacionamento privado distante que, por sua vez, também já corre o risco de estar cheio. Chega-se ao absurdo de ter carro, mas é preferível pegar Uber pra sair. Novamente, a liberdade diminui.

Precisamos falar também das ladeiras. No tempo todo em que estivemos aqui, a Laryssa não se sentiu segura para dirigir. E olha que ela dirige bem. Mas é que além do trânsito ser pesado, as faixas estreitas, ainda tem a questão das ladeiras, que torna tudo mais complicado. Não dá nem vontade de sair pra caminhar, tudo tem que ser feito de carro.

Mas vamos voltar pra nossa lista de critérios, vejam como o trânsito afeta. Belo Horizonte tem um bom acesso às artes? Não. Tem muita arte! Ah, se tem! Mas como se acessa? O acesso é sempre muito difícil, caro, e penoso. Pra ter uma ideia, o único ponto artístico onde encontramos estacionamento foi o Museu de Arte da Pampulha, fechado "temporariamente" para reforma desde 2019.

E dá um pouco de pena, sabe? Ouvir amigos queridos dizer que saem de casa às 6:30 da manhã pra chegar no trabalho às 9. Ou dizer que: "É só sair 40 minutos mais cedo que não pego trânsito!". Eu entendo que as pessoas se acostumam e sempre dão um jeito. Mas, meus amigos, isso não é jeito de viver. Pelo menos não pra gente.

Outro ponto da lista diretamente ligado ao trânsito: conectividade. Pra ter uma ideia, Belo Horizonte não tem aeroporto pra voos comerciais. Se você quiser chegar aqui, vai ter que pousar em Confins, que, como o nome já diz, fica bem distante da cidade. Sem exagero: leva pelo menos 1h de carro do centro até o aeroporto — sem trânsito!

Não vou comentar sobre a insegurança da cidade, sobre a população de moradores de rua que assusta até os locais, sobre a cidade ser toda pichada, suja, etc.; também não quero me deter nos alagamentos em dias de chuva que transformam ruas em rios. Quero finalizar essa seção falando de um tópico que nos surpreendeu: o custo de vida em Belo Horizonte é mais caro que em Brasília!

Pois é, minha gente. Basta ver a tabela de preços pra tirar as próprias conclusões. A única coisa mais barata aqui é a moradia, porque de fato se consegue apartamento maior em Belo Horizonte do que em Brasília, por preços até menores. Mas, de resto, é uma cidade cara. Nós evitamos sair e sempre fazemos mercado para cozinhar em casa: mas até isso estava ficando pesado financeiramente.

Veja, por exemplo, muito se fala da culinária mineira. Ela de fato é boa, mas quem disse que é todo mundo que consegue arcar? Por exemplo, você acha que todo lugar vai ter o famoso pão de queijo mineiro? Não é bem assim. 

Uma padaria, por exemplo, não vai gastar pra fazer um pão de queijo do zero, ela vai pegar os congelados que são mais baratos e colocar pra assar aos montes. Se encontra muito pão de queijo e é bem comum? Sim, mas não são os famosos. Esses são mais caros e só encontrados em lugares seletos. A comida, de modo geral, é muito parecida com a que encontramos em outros lugares do Brasil.

Foto do trânsito pesado em Belo Horizonte num começo de noite

#Conclusão

Bom, meu povo. O que dizer mais, não é? Evidente que ficamos desapontados com nosso tempo aqui. A única coisa que nos deu ânimo foi encontrar algumas pessoas que fizeram nosso tempo valer a pena. Pra terem uma ideia, depois de um mês aqui, eu já tava até pensando em ir embora. Foi só quando visitamos uns amigos e encontramos a igreja que deu vontade de continuar.

Fomos honestos com as pessoas que moram aqui, e muitas delas tiveram que concordar com as nossas objeções. Alguns ainda tentaram argumentar, que o bom mesmo é passear no interior de Minas Gerais. Olha, eu até entendo; mas se pra curtir Belo Horizonte eu na verdade tenho que sair de Belo Horizonte... acho que isso fala mais contra do que a favor da cidade.

Enfim, vamos em frente. Aprendemos muito sobre viver numa cidade, sobre a importância do acolhimento, sobre valorizar as coisas simples da vida. Em tudo damos graças a Deus, porque sabemos que ele está guiando nossa história e nos ensinando.

Obrigado por acompanhar nossa jornada! Se quiser ver o que escrevemos sobre as cidades onde já passamos, está no final dessa página: Lista de cidades.

Nosso próximo capítulo é São José dos Campos.
Até lá!

sexta-feira, 6 de março de 2026

Brasília é uma cidade boa para morar?

#Introdução


Bom, depois de dois meses morando no Distrito Federal — um mês em Águas Claras e outro no Plano Piloto — talvez seja possível responder à pergunta, pelo menos de modo superficial. Nesse post vamos destacar alguns pontos positivos e negativos da nossa experiência vivendo em Brasília. 

Pra quem não quer esperar até o fim pra ver a resposta, é o seguinte: Brasília é uma cidade boa para se morar? Se você tiver dinheiro, sim.

Vista do Congresso Nacional, no Plano Piloto em Brasília durante a estadia.

#Pontos positivos


Acho que a primeira coisa que salta aos olhos quando se visita Brasília é como a cidade é organizada. Sério, é um absurdo. Brasília é um exemplo vivo do que o brasileiro seria capaz de fazer se fosse só um pouquinho mais focado e resolvesse fazer a coisa do jeito certo. 

O urbanismo dela não é perfeito, evidente — afinal de contas, ainda é Brasil. Mas a malha viária é excelente, o trânsito, mesmo sendo pesado, acaba fluindo. Além disso, pelo menos no Plano, a cidade que tinha tudo pra ser só concreto acaba sendo muito bem arborizada. 

Ficamos hospedados no setor Sudoeste e, meu Deus, como é agradável sair pra caminhar no Plano. Dá gosto de ver as árvores balançando, de sentir o vento fresquinho no rosto, de encontrar amigos e sair pra comer. Nesse ponto, não há dúvida, Brasília é muito boa para se morar.

Mas calma que me perdi um pouco no meu devaneio. O melhor jeito de avaliar a cidade é usando os critérios que elencamos no começo dessa jornada.

Sobre o clima, Brasília está no limite. É quase sempre bem agradável durante a noite, mas durante o dia pode fazer um calor que incomoda. Chegamos a ver 35º C — nossa, que absurdo! (Contém ironia. Basta ver nosso comentário sobre o clima de Boa Vista/RR). 

Brincadeiras à parte, o clima é bem agradável. Mesmo quando fica quente durante o dia, à noite dá uma amenizada. Mas o povo local disse que tem épocas em que fica ainda mais quente. Bom, isso é algo a se considerar, com certeza. Nesse quesito, diria que o clima fica numa categoria neutra.

A conectividade de Brasília também é bem interessante. É um dos poucos aeroportos no Brasil que têm voos diretos para todas as capitais, além de oferecer rotas internacionais. Por outro lado, achamos os arredores do DF um pouco esvaziados. Vou comentar isso na segunda parte do post.

Por outro lado, o acesso às artes compensa demais. É impressionante ver como tudo ali orbita em torno de Brasília. Tivemos a oportunidade de ver um autêntico show de MPB na Asa Norte, passear pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (que funciona como um museu, com várias exposições), e contemplar a arquitetura de Oscar Niemeyer. 

Olha, eu nem sou tanto da arquitetura, mas é que passear na Esplanada dos Ministérios e contemplar aqueles prédios, é algo fenomenal. Como se não fosse suficiente, passear ainda na Ermida Dom Bosco foi um presente à parte, um lugar que traz e orna a beleza da natureza de Brasília. 

Meu único porém no acesso às artes, é que é muito difícil conseguir assistir à Orquestra do Teatro Nacional. Os ingressos até são gratuitos, mas eles se apresentam apenas uma vez ao mês e os ingressos esgotam rápido demais, não temos nem chance de conseguir. Pra um lugar que se propõe tão artístico, achei a música erudita, no mínimo, um pouco seleta demais.

Um último ponto aqui, não elencado antes, mas que merece destaque, é a segurança em Brasília. Em Águas Claras muito mais, porém até no Plano ainda se vê um nível de segurança muito impressionante. As pessoas andam com celular na rua, caminham até tarde da noite, e até deixam carro na rua sem problemas.

Pra se ter uma ideia, no tempo inteiro que ficamos no Sudoeste, nosso carro ficou estacionado na rua (o prédio não tinha garagem) e não tivemos problema nenhum. E não só nós, como todos os outros moradores. 

Nem todo lugar em Brasília é seguro. Quanto mais se afasta do Plano, mais perigoso fica (até mesmo com favelas nas regiões mais distantes); e mesmo o Plano tem algumas áreas que são mais inseguras (como parte da Asa Norte). Porém, mesmo com tudo isso, é gritante como Brasília é uma cidade segura de modo geral.

Copa das árvores no Plano Piloto, mostrando a arborização característica de Brasília.

#Pontos negativos


Bom, vamos começar pelo mais gritante deles: o custo de vida em Brasília. Engraçado que falo isso, mas, de modo geral, o custo de vida é até mais barato que Boa Vista/RR, basta dar uma olhada de relance na Tabela comparativa. Energia elétrica, gasolina, hortifruti, praticamente tudo é mais barato do que em Boa Vista. 

O problema mesmo são dois. Primeiro, a moradia. Gente, é impressionante como tudo em Brasília é bem apertadinho. Até os apartamentos mais espaçosos, ainda se vê a mentalidade de economia de espaço. 

Por um lado, isso é bom, por outro, assusta pagar tão caro em um apartamento tão pequeno! Morar em Águas Claras já era caro, no Plano então, vish!, morar bem é uma fortuna. E, do meu ponto de vista, nem vale tanto a pena assim, a não ser que você trabalhe no Plano.

Digo isso porque se for pra gastar mais de meio milhão num apartamento, prefiro comprar um em Águas Claras, onde tudo é mais novo, o prédio já vem com academia, piscina, portaria e tudo o mais. Pra quem trabalha online, como eu, faz muito pouco sentido pagar caro para morar no Plano quando se tem a opção de um lugar com mais conforto. 

O outro ponto negativo do custo de vida é aquilo que já falei no post de Águas Claras: tudo é muito gourmetizado. Não existe mais padaria de bairro, não existe mais academia de bairro, não existe mais o cachorro-quente da esquina. Tudo é preço de loja. E os preços de loja são preços de boutiques. Sair pra comer, de modo geral, é bem caro.

Sobre os arredores, nos parece que tudo gira tanto em torno do Distrito Federal, que sobram poucas opções. Quero dizer, o interior do Goiás é bonito e especialmente bom para passeios que visam o turismo ecológico. Mas é que, como já dissemos em post anterior, esse definitivamente não é o nosso estilo de turismo. Então se for pra ir de carro, me senti sem muitas opções.

Outro ponto que merece atenção é que, enquanto o urbanismo da cidade é um marco do que o brasileiro é capaz de fazer com a organização, ao mesmo tempo ele peca por esquecer, de modo geral, do pedestre.

Brasília é uma cidade pra se andar de carro, não tem como. Quem está em Águas Claras consegue viver uma exceção, onde dá pra fazer tudo a pé. Mas no Plano, mesmo que seja organizado, as distâncias permanecem. E distâncias essas que só com carro mesmo. 

Sem exagero: trajetos que são 7 minutos de carro, podem ser quase 1 hora a pé! Quem não tem carro ou depende do transporte público em Brasília sofre. Infelizmente é uma cidade pensada para carros, com uma malha viária sensacional, mas com poucas boas opções para pedestres.

Casal ao lado do letreiro “Eu amo Brasília”, simbolizando a experiência de morar na capital federal.

#Conclusão

Faltou um ponto a se comentar, que deixei para o final de propósito. Um critério que julgamos essencial, que inclusive é o primeiro critério da lista: que a cidade tenha boas Igrejas Presbiterianas do Brasil. E sim, Brasília as tem.

Mas vou ser honesto aqui com vocês, que Brasília talvez tenha até IPBs demais. Demais a ponto de vermos algumas coisas que nos deixam com um pé atrás. De nos fazer pensar até onde algumas comunidades podem ir e ainda serem chamadas de "presbiterianas".

Isso não quer dizer, claro, que não tenhamos encontrado boas IPBs. Nossa, e como encontramos. Enquanto em Águas Claras, congregamos na 1ª Igreja Presbiteriana de Taguatinga (coisa de 15min de distância). Toda vez que voltávamos da igreja, olhávamos um para o outro e dizíamos: "Será que ainda precisamos continuar? Porque aqui é tão bom, que talvez já dê pra ficar."

No período em que estivemos no Plano, frequentamos a Igreja Presbiteriana do Sudoeste. Uma igreja pequena, mas tão tão acolhedora, que nos deu pena dizer tchau. Uma comunidade que nos faz ter vontade de voltar e morar lá.

Nenhuma dessas igrejas é perfeita, nenhuma de fato será. Mas as duas têm algo que faz diferença: as pessoas. E essa é a verdadeira conclusão que tiramos de Brasília, que vai além das pessoas que conhecemos nas igrejas.

Em Brasília nós temos amigos. Gente que se importa com a gente, que faz questão de estar perto. Gente pelas quais nós nos importamos, gente a quem não apenas queremos bem, mas queremos fazer de tudo ao nosso alcance para que vivam bem. Gente que nós amamos. 

Se em todo lugar a que formos encontrarmos pessoas assim, então essa viagem vai ser muito mais difícil do que imaginávamos. Brasília, apesar de todos os seus custos e poréns, ainda é uma cidade que está no páreo, uma cidade que dá vontade de voltar e morar.

Brasília, nós gostamos bastante de você. 
Quem sabe o que Deus tem preparado para nossa história?
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