sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Joinville é uma cidade boa para morar?

#Introdução


Ok, vamos lá. Foram dois meses em Joinville. Chegamos no fim de Junho e estamos saindo em meados de Agosto. O certo a fazer agora seria responder à pergunta do título do post, como faço em todos os outros. Mas dessa vez vou responder de um modo diferente.

Joinville/SC é uma cidade boa para morar? Numa escala de 1 a 5, eu daria a nota 2 para Joinville. Ou seja, não é de todo ruim para morar, mas está abaixo da média — para fins da nossa viagem! 

Calma, deixa eu explicar.

Vista do centro de Joinville/SC ao entardecer, com prédios e o céu iluminado pelo pôr do sol.


#PONTOS POSITIVOS


A nossa viagem tem quatro critérios bem estabelecidos — e provavelmente vamos adicionar um quinto antes da nossa escolha final. Estes critérios estão elencados em ordem de prioridade. Na prática, isso significa que se um lugar for excelente no critério 3, mas não for bom no critério 2, então esse lugar já perde pontos pra gente. Se ainda não viram o post, sugiro que deem uma lida, é coisa rápida. 

Bom, pra começar pelos pontos positivos da cidade, acho que ela se destaca pela beleza. Dá gosto de passear nas ruas e se deparar com uma autêntica arquitetura teuto-brasileira. Não é só diferente, é bonito mesmo. É olhar pras casas, pros prédios, e imaginar como deve ser morar ali. Joinville surpreende em vários momentos pela arquitetura.

Uma outra coisa que me pareceu bem clara é a questão da segurança. Estávamos hospedados no centro da cidade, lugar que, via de regra, não é muito aconselhável andar à noite em cidade alguma. Porém, pra nossa surpresa, o centro se provou ser bem seguro e até movimentado. Todo mundo andando até tarde, com celular na mão, tudo muito tranquilo. 

Talvez o exemplo mais claro da segurança tenha sido quando saímos com dois amigos para uma cafeteria no centro. Eles foram de moto e nos encontramos lá. Ao sair, nos despedimos e eles foram pra moto: eles tinham deixado os capacetes na moto. No lado de fora da cafeteria. No estacionamento que era apenas a calçada da rua. 

Também apreciamos muito a cultura do silêncio. Mesmo estando no centro, às 22:30 tudo parava. Os barzinhos com música ao vivo fechavam, as ruas ficavam tranquilas, e dormir em paz era fácil. Isso se deve, em grande parte, à cultura industrial da cidade. Muita gente tem que acordar cedo, porque a fábrica não perdoa. Isso ficou bem enraizado na cidade. 

Nenhum dos pontos acima é parte dos nossos critérios; são apenas bônus. Mas no quesito conectividade, Joinville está numa posição privilegiada. Está perto de Curitiba, de Florianópolis, de várias cidades próximas e com estradas boas que possibilitam viajar tranquilo. A cidade também conta com aeroporto. Nesse ponto, creio que a única coisa ruim seria o trânsito em horário de pico — mas, honestamente, que cidade não tem trânsito ruim nesse horário? De modo geral, esse ponto foi bom.

E o critério em que Joinville se destaca muito, mas muito mesmo, é o acesso à arte. A cidade tem o maior Festival de Dança do mundo, comprovado pelo Guinness! E veja só que interessante: estávamos na cidade bem na época em que ele aconteceu. Foi realmente um privilégio ter acesso à arte de alta qualidade bem na porta do nosso apartamento. 

Além disso, a cidade é parte do circuito de orquestras e conta com escolas de formação de base inigualáveis. Gente, já cheguei a estudar e viver um pouco de música no exterior em mais de uma ocasião e posso dizer com categoria que o que encontramos em Joinville é coisa de primeiro mundo. É coisa de músicos profissionais de outros estados brasileiros verem e ficarem admirados.

Então, nos critérios 3 e 4 elencados por nós para nossa viagem, Joinville está muito bem na foto. 

Praça Nereu Ramos (Joinville/SC). Vista noturna do centro de Joinville/SC, com prédios iluminados e céu encoberto.

#PONTOS NEGATIVOS


Bom, vamos lá. Provavelmente é esperado que eu coloque o clima como ponto negativo, mas talvez não pelos motivos que a maioria pensa. É que quando a gente fala do Sul, logo já temos uma imagem formada: frio! Mas não foi exatamente esse nosso problema com o clima em Joinville.

Nós pegamos só uma ou duas semanas de frio intenso, daquele em que a gente acorda e o termômetro marca 8 °C e a máxima do dia é perto de 15 °C. Na maior parte do tempo em que estivemos aqui, as mínimas eram entre 14 e 16 °C, enquanto as máximas batiam quase 30 °C. No fim das contas, foi rápido se acostumar e não sofremos tanto quanto achávamos que iríamos. O problema mesmo foi ser surpreendido pela umidade. 

Joinville está numa região de manguezais, perto do mar, e tem um rio que corta a cidade. A umidade aqui, durante vários dias, estava na casa dos 90%! Não eram raros dias em que batia 99%. Inclusive, os locais têm uma piada interna sobre isso. Eles dizem que o nome da cidade não é "Joinville" e sim "Chuville", porque toda semana chove. Além disso, a proximidade da cidade com a serra torna a cidade um pouco abafada quando a umidade está alta.

Essa umidade aumentou bastante nosso desconforto térmico e até mesmo as nossas questões respiratórias. Além disso, secar roupa na cidade é um sofrimento. A princípio achávamos que isso era um problema só do nosso apartamento, mas conversamos com outras pessoas e várias delas tiveram a mesma reclamação. Ao que parece, ter uma lava-e-seca é bem essencial para a cidade. Em certa ocasião, tivemos até que pagar uma secadora profissional pra ajudar com essa questão.

O outro ponto que mais pegou, e fico até receoso de escrever sobre isso, foi a questão das igrejas. Não posso ser injusto a ponto de dizer que não existam boas Igrejas Presbiterianas na cidade, mas a gradação do que se entende por "boas" é que vai variar. Perdoem-me, mas vou precisar escrever um bocadinho sobre isso, pra deixar tudo bem claro.

Para mim, a regra nº 1 pra se considerar uma Igreja boa é que ela seja fiel à pregação da Bíblia. E isso nós encontramos. A segunda coisa é que a igreja exerça com fidelidade os outros meios de graça: oração, execução dos sacramentos (Ceia e batismo), e comunhão. Aí já não posso dizer que encontrei tudo isso.

Visitamos três igrejas presbiterianas diferentes, e optamos por ficar mais tempo em uma. A pregação é muito boa, realmente é. São mensagens que edificam, que são fiéis à Escritura. O problema maior é um que tem sido patente em muitas outras igrejas presbiterianas que visitamos: o acolhimento. 

A princípio, eu achei que isso era um problema do Sul, das pessoas serem mais frias, fechadas. E até chega a ser, em certa medida, mas não totalmente.

Frequentamos uma igreja por dois meses, e acho que se dez pessoas sabem o nosso nome nela, deve ser muito. Nós íamos ao culto da manhã, ficávamos para a EBD, íamos ao culto da noite, íamos ao culto da semana, e quando ficávamos sabendo de outras programações, nós íamos também. 

Não é que não houve acolhimento nenhum, mas é que ele é muito tímido, sem intencionalidade, e demorou bastante pra acontecer; quando aconteceu, ainda foi pontual.

Enquanto houve igrejas que frequentamos em outra cidade que, no primeiro domingo, já parecia que éramos de casa; em Joinville frequentamos por dois meses e ainda parecia que não éramos parte da família, mas apenas visitantes.

Há que se considerar a cultura do local, das pessoas serem meio fechadas mesmo? Sim, mas enquanto isso explica, não justifica — e nem explica totalmente. Veja, uma boa igreja vai ser sempre influenciada pela cultura da sua época, é natural. Mas não deveria nunca ser moldada por ela. Se a Escritura nos ensina a sermos acolhedores, tanto faz o país, a cultura, as tradições: nós devemos ser acolhedores. 

E aí, veja que coisa. Em Joinville encontramos um amigo de longa longa data, que por acaso mora na cidade e também ficou sabendo que estaríamos lá. Me convidou para visitar um pequeno grupo de sua igreja (que não é presbiteriana). Eu aceitei o convite. Chegando lá, me surpreendi muito em ver um grupo com pouca ou nenhuma leitura bíblica... mas muito acolhimento. 

Pra mim não faz sentido que pessoas que eu encontrei uma única vez estivessem mais interessadas em criar laços do que aquelas que eu via todo domingo. Foi aí que me toquei de que Joinville não sofre com falta de acolhimento... a igreja presbiteriana, sim. 

Na nossa experiência em Joinville, acontece o seguinte: o joinvilense que é acolhedor é muito acolhedor; aquele que não é acolhedor, não é nada acolhedor. É uma cidade de 8 ou 80. A igreja não deveria ser assim. 

E o que mais me assusta é que não tenho certeza se a igreja sabe disso, se ela entende a necessidade que tem de amadurecer nesse sentido. A pregação da Palavra é boa e edificante, mas é preciso ser maduro por completo, não só em um aspecto. 

Não foi a primeira vez que enfrentamos isso. Sofremos isso na pele também em Belo Horizonte. Mas, lá, pelo menos encontramos um oásis que nos deu fôlego. Em Joinville, por outro lado, parece que não havia respiro. 

Então surge o dilema: se eu sei de tudo isso e vejo que a coisa não está dando muito certo, não seria minha responsabilidade trazer isso à tona? A primeira coisa que considero é que eu não posso achar que sou um super-herói salvador da pátria. Cristo é o líder e sustentador da igreja, não eu. Ao mesmo tempo, "[...] aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando." (Tg. 4:17). Foi por isso que tirei um tempo e resolvi conversar com o pastor da igreja a respeito disso, e fiquei muito feliz em saber que essa é uma luta que ele também vê.

A IPB em Joinville tem irmãos fiéis, gente que ama Deus, e tenho certeza, que também se incomoda com o mesmo que me incomoda. Vejo que a Igreja Presbiteriana tem muito a crescer em Joinville, e também acho que há servos fiéis lutando para que isso aconteça. Acho que vai levar uns 20 ou 30 anos até ver essas igrejas sólidas. Que Deus tenha misericórdia desses irmãos e os fortaleça. O trabalho para Deus nunca é vão.

Vista da praça Nereu Ramos, em Joinville/SC

#Conclusão


Joinville é uma cidade boa para morar? Olha, de modo geral, eu até acho que é. Se a gente pensar só em termos de qualidade de vida (acesso à saúde, educação, segurança, etc.), creio que ela está muito superior a várias outras cidades de mesmo porte no Brasil. O Sul, de fato, parece muito com o Primeiro Mundo algumas vezes.

Mas, para fins da nossa viagem, Joinville deixou muito a desejar em alguns critérios elencados por nós. E infelizmente justamente nos dois critérios que mais nos importam. Novamente, isso não quer dizer que não aproveitamos nada da cidade, ou que ela não tenha nada de bom a oferecer, é só o que faz mais sentido pra gente. 

De novo — isto não é sobre as boas pessoas que encontramos e marcaram nosso caminho. É um comentário sistêmico, sobre Joinville como um todo.

Enfim, agora inauguramos mais um capítulo da nossa viagem — e já é o penúltimo! Logo mais não teremos opção senão parar tudo e encarar o momento derradeiro: escolher onde vamos morar. 

Mas, calma, que ainda tem chão (e bote chão nisso). 
Se ainda não viu, temos comentários sobre todas as cidades pelas quais já passamos: Boa Vista, Brasília, Belo Horizonte, e São José dos Campos. Vale a pena conferir.
Muito obrigado por acompanhar a nossa peregrinação!

A próxima parada é Bento Gonçalves. 
Nos vemos por lá. 

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