terça-feira, 30 de junho de 2026

Histórias peregrinas — Brasília

No último post sobre São José dos Campos, mencionei que a cidade não me fascinou. Mas, ao mesmo tempo, fiquei me perguntando que sentimento era esse. Então fiz a pergunta natural: o que me fascina? A verdade é que isso não é tão claro pra mim. Resolvi então olhar pra trás e tentar responder a essa pergunta vendo as histórias que tenho para contar das cidades por que passei. Quem sabe isso ajude a lançar luz sobre a questão.

Vou contar as histórias na ordem das cidades. Assim, comecemos por Brasília.

Prédios residenciais em Águas Claras, Brasília, vistos do alto durante o dia

cheguei a comentar que Brasília me fascina. Ela é o que o Brasil poderia ser se fosse só um pouquinho mais organizado, é um lugar único e sem paralelos no Brasil (pelo menos do meu ponto de vista). A cidade encanta por vários motivos, mas uma das coisas de que mais gosto nela é o elemento humano. Cheguei a falar isso também no post sobre a cidade, mas quero falar um pouco mais sobre isso.

Certo dia, eu saí pra passear em Águas Claras. Era noite e o clima estava ótimo. A uns dois quarteirões do nosso prédio havia uma praça enorme, cercada de grandes prédios, cheia de verde e de vida. A praça estava lotada. Um grupo de pessoas jogava tênis, outros vôlei, na quadra de basquete se ouvia a bola quicando, na pista de skate as rodinhas cortavam o chão. Pessoas riam, conversavam, viviam.

Eu dei uma volta na praça, fingindo que estava caminhando. Tudo mentira. Eu estava observando. Vendo o casal que fazia piquenique na área verde, o pai que passeava com o carrinho de bebê enquanto a mãe fazia um cooper, a velhinha com sua roupa de academia e fazendo uma caminhada bem mais eficiente que a minha. E em tudo me fascinava. 

Foi também em Águas Claras que descobri que amo prédios. Vejo-os imponentes quando caminho ao lado deles, daquele jeito que nem dá pra olhar pra cima direito sem correr o risco de uma leve vertigem. Mas não são os prédios em si que me fascinam. Eles têm seu valor, mas, novamente é a vida. 

Sou fascinado por olhar pela janela e ver prédios e prédios, cada um cheio de várias janelinhas. Em uma das janelas, um homem senta no sofá e assiste à TV; em outra, uma mãe embala o bebê; já naquela, o casal de idosos reparte uma sopinha e alguém ri. Em outra, alguém chora. Em algumas as luzes são brancas, em outras amarelas, outras estão sem luzes acesas, mesmo tendo pessoas ali.

Isso não fascina vocês também? De ver aquela infinitude de histórias, cada uma tão complexa e tão cheia de importância quanto a outra. De passar pelo corredor do prédio e pensar que cada porta daquela é uma vida inteira, tão rica e tão única. 

Sair na rua e ver isso me fascina de um jeito que não sei explicar. Certo dia, eu resolvi acordar cedo pra caminhar naquela mesma praça. Havia poucas pessoas, mas uma cena me marcou. Um rapaz, todo de terno, com uma mochila cara nas costas. Estava bem arrumado, barba feita, sapato polido. Certamente alguém que trabalhava em alguma importante repartição pública da capital do Brasil. 

Ele sentou-se num banco de pedra da praça, o mesmo em que todos sentavam, talvez o mesmo em que eu mesmo havia sentado na noite anterior. Ali, ele pegou uma sacola simples, tirou o salgado barato de padaria, repousou o copinho de café no banco e devorou a comida, atrasado para o expediente que logo ia começar. 

Brasília é um retrato perigosamente fiel do Brasil, onde as aparências não revelam toda a história, apenas mascaram parte dela. E quanto mais penso nisso, mais me encanto. Acho que descobri que é observando outras pessoas que consigo aprender um pouquinho mais sobre mim. E isso me fascina.

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