segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Histórias peregrinas — Joinville

Joinville deve ser a primeira cidade que me fascina pela própria cidade, não diretamente pelas pessoas. Me agrada bastante que Joinville não seja uma cidade morta. A gente sai na rua e vê pessoas, crianças brincando na praça, vida pra todo o lado. A cidade ainda tem o encanto da arquitetura. 

Eu não entendo nada de arquitetura, longe de mim aventurar algo nessa área. Mas ouso dizer que sei reconhecer o belo, e uso isso pra construir arte. Então quando ando na rua e vejo aqueles prédios antigos, hotéis do século passado, casas de época que hoje são consultórios médicos, ou mesmo um prédio antigo abandonado, não consigo evitar a imaginação.

Olho pra uma casa, arquitetura alemã, peças de madeira, janelas grandes que dão pra rua. Quem será que já morou aqui? Olha, essa aqui virou um consultório médico. As pessoas entram pra trabalhar ou serem atendidas, e estão pisando no mesmo chão que um dia uma mãe, um pai já disseram tchau pra um filho; estão olhando pela janela onde uma moça já sonhou com um rapaz; estão abrindo uma porta que um dia uma criança abriu pra pedir algo pra mãe. 

Aquela outra casa tem uma pequena sacada na janela do segundo andar. Será que era ali que as velhas fofoqueiras da época se sentavam pra ver o movimento na rua? Ou era onde ficava a cadeira do vovô, que fumava enquanto balançava a cabeça vendo os jovens na rua e pensando que esse mundo está perdido porque olha só essa geração aí, na minha época... 

E é aquilo, sabe? Não são coisas construídas só pela utilidade, mas também pela beleza. E mais belo ainda é ver coisas conservadas. Nem tudo, claro. Mas o que se vê abre a nossa imaginação. 

Comecei dizendo que o fascínio era pela arquitetura da cidade. Agora percebi que me enganei. São pelas pessoas que já fizeram parte da história da arquitetura da cidade. Não tem como, a vida me fascina.


Uma outra coisa que me fascinou em Joinville foi a Praça Nereu Ramos, que, na cidade não é conhecida por esse nome. Ela é, na verdade, a famosa Praça do Dominó. É que, todo santo dia, uma turma se reúne ali pra jogar dominó. Trata-se dos aposentados. 

E eu ficava lá na janela do apartamento olhando a praça, vendo os véio chegar cedo e esperar a turma do dominó e do baralho. De repente, os bancos estavam cheios, as mesas lotadas e o jogo comendo solto.

Querendo ou não, a gente acaba vendo e se surpreendendo. Por exemplo, um dia eu vi um velho chegar de muletas. Em outro, eu estava chegando da academia (de carro, claro), estava uma neblina forte, pois lá estava o velho chegando com seu conjunto de dominó debaixo do braço.

Em outra ocasião, tive que parar o trabalho e ver pela janela do apartamento o que estava acontecendo: aparentemente um velho perdeu e não gostou, estava de pé apontando pro outro e puxando briga. Foi um acalma daqui, um acalma de lá, e o velho sentou de novo, tirou um dinheiro da carteira e deu pro vencedor. Quando olhei de novo, já estavam na próxima partida.

A minha vontade, honestamente, era descer um dia e entrar na fila pra jogar com eles. Comentei isso com o pessoal da cidade e eles me alertaram: "Rapaz, cuidado que os véio são bom!"

Fiquei com medo de passar vergonha, e ainda bem que não fui: descobri que tem até campeonato intermunicipal de dominó! Os véio iam me detonar e tirar toda minha grana. Certamente, no fim veriam eu indo embora e sorririam uns para os outros, abanariam a cabeça e começariam a próxima partida pensando:

"Esses jovens!"

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