sexta-feira, 6 de março de 2026

Brasília é uma cidade boa para morar?

#Introdução


Bom, depois de dois meses morando no Distrito Federal — um mês em Águas Claras e outro no Plano Piloto — talvez seja possível responder à pergunta, pelo menos de modo superficial. Nesse post vamos destacar alguns pontos positivos e negativos da nossa experiência vivendo em Brasília. 

Pra quem não quer esperar até o fim pra ver a resposta, é o seguinte: Brasília é uma cidade boa para se morar? Se você tiver dinheiro, sim.

Vista do Congresso Nacional, no Plano Piloto em Brasília durante a estadia.

#Pontos positivos


Acho que a primeira coisa que salta aos olhos quando se visita Brasília é como a cidade é organizada. Sério, é um absurdo. Brasília é um exemplo vivo do que o brasileiro seria capaz de fazer se fosse só um pouquinho mais focado e resolvesse fazer a coisa do jeito certo. 

O urbanismo dela não é perfeito, evidente — afinal de contas, ainda é Brasil. Mas a malha viária é excelente, o trânsito, mesmo sendo pesado, acaba fluindo. Além disso, pelo menos no Plano, a cidade que tinha tudo pra ser só concreto acaba sendo muito bem arborizada. 

Ficamos hospedados no setor Sudoeste e, meu Deus, como é agradável sair pra caminhar no Plano. Dá gosto de ver as árvores balançando, de sentir o vento fresquinho no rosto, de encontrar amigos e sair pra comer. Nesse ponto, não há dúvida, Brasília é muito boa para se morar.

Mas calma que me perdi um pouco no meu devaneio. O melhor jeito de avaliar a cidade é usando os critérios que elencamos no começo dessa jornada.

Sobre o clima, Brasília está no limite. É quase sempre bem agradável durante a noite, mas durante o dia pode fazer um calor que incomoda. Chegamos a ver 35º C — nossa, que absurdo! (Contém ironia. Basta ver nosso comentário sobre o clima de Boa Vista/RR). 

Brincadeiras à parte, o clima é bem agradável. Mesmo quando fica quente durante o dia, à noite dá uma amenizada. Mas o povo local disse que tem épocas em que fica ainda mais quente. Bom, isso é algo a se considerar, com certeza. Nesse quesito, diria que o clima fica numa categoria neutra.

A conectividade de Brasília também é bem interessante. É um dos poucos aeroportos no Brasil que têm voos diretos para todas as capitais, além de oferecer rotas internacionais. Por outro lado, achamos os arredores do DF um pouco esvaziados. Vou comentar isso na segunda parte do post.

Por outro lado, o acesso às artes compensa demais. É impressionante ver como tudo ali orbita em torno de Brasília. Tivemos a oportunidade de ver um autêntico show de MPB na Asa Norte, passear pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (que funciona como um museu, com várias exposições), e contemplar a arquitetura de Oscar Niemeyer. 

Olha, eu nem sou tanto da arquitetura, mas é que passear na Esplanada dos Ministérios e contemplar aqueles prédios, é algo fenomenal. Como se não fosse suficiente, passear ainda na Ermida Dom Bosco foi um presente à parte, um lugar que traz e orna a beleza da natureza de Brasília. 

Meu único porém no acesso às artes, é que é muito difícil conseguir assistir à Orquestra do Teatro Nacional. Os ingressos até são gratuitos, mas eles se apresentam apenas uma vez ao mês e os ingressos esgotam rápido demais, não temos nem chance de conseguir. Pra um lugar que se propõe tão artístico, achei a música erudita, no mínimo, um pouco seleta demais.

Um último ponto aqui, não elencado antes, mas que merece destaque, é a segurança em Brasília. Em Águas Claras muito mais, porém até no Plano ainda se vê um nível de segurança muito impressionante. As pessoas andam com celular na rua, caminham até tarde da noite, e até deixam carro na rua sem problemas.

Pra se ter uma ideia, no tempo inteiro que ficamos no Sudoeste, nosso carro ficou estacionado na rua (o prédio não tinha garagem) e não tivemos problema nenhum. E não só nós, como todos os outros moradores. 

Nem todo lugar em Brasília é seguro. Quanto mais se afasta do Plano, mais perigoso fica (até mesmo com favelas nas regiões mais distantes); e mesmo o Plano tem algumas áreas que são mais inseguras (como parte da Asa Norte). Porém, mesmo com tudo isso, é gritante como Brasília é uma cidade segura de modo geral.

Copa das árvores no Plano Piloto, mostrando a arborização característica de Brasília.

#Pontos negativos


Bom, vamos começar pelo mais gritante deles: o custo de vida em Brasília. Engraçado que falo isso, mas, de modo geral, o custo de vida é até mais barato que Boa Vista/RR, basta dar uma olhada de relance na Tabela comparativa. Energia elétrica, gasolina, hortifruti, praticamente tudo é mais barato do que em Boa Vista. 

O problema mesmo são dois. Primeiro, a moradia. Gente, é impressionante como tudo em Brasília é bem apertadinho. Até os apartamentos mais espaçosos, ainda se vê a mentalidade de economia de espaço. 

Por um lado, isso é bom, por outro, assusta pagar tão caro em um apartamento tão pequeno! Morar em Águas Claras já era caro, no Plano então, vish!, morar bem é uma fortuna. E, do meu ponto de vista, nem vale tanto a pena assim, a não ser que você trabalhe no Plano.

Digo isso porque se for pra gastar mais de meio milhão num apartamento, prefiro comprar um em Águas Claras, onde tudo é mais novo, o prédio já vem com academia, piscina, portaria e tudo o mais. Pra quem trabalha online, como eu, faz muito pouco sentido pagar caro para morar no Plano quando se tem a opção de um lugar com mais conforto. 

O outro ponto negativo do custo de vida é aquilo que já falei no post de Águas Claras: tudo é muito gourmetizado. Não existe mais padaria de bairro, não existe mais academia de bairro, não existe mais o cachorro-quente da esquina. Tudo é preço de loja. E os preços de loja são preços de boutiques. Sair pra comer, de modo geral, é bem caro.

Sobre os arredores, nos parece que tudo gira tanto em torno do Distrito Federal, que sobram poucas opções. Quero dizer, o interior do Goiás é bonito e especialmente bom para passeios que visam o turismo ecológico. Mas é que, como já dissemos em post anterior, esse definitivamente não é o nosso estilo de turismo. Então se for pra ir de carro, me senti sem muitas opções.

Outro ponto que merece atenção é que, enquanto o urbanismo da cidade é um marco do que o brasileiro é capaz de fazer com a organização, ao mesmo tempo ele peca por esquecer, de modo geral, do pedestre.

Brasília é uma cidade pra se andar de carro, não tem como. Quem está em Águas Claras consegue viver uma exceção, onde dá pra fazer tudo a pé. Mas no Plano, mesmo que seja organizado, as distâncias permanecem. E distâncias essas que só com carro mesmo. 

Sem exagero: trajetos que são 7 minutos de carro, podem ser quase 1 hora a pé! Quem não tem carro ou depende do transporte público em Brasília sofre. Infelizmente é uma cidade pensada para carros, com uma malha viária sensacional, mas com poucas boas opções para pedestres.

Casal ao lado do letreiro “Eu amo Brasília”, simbolizando a experiência de morar na capital federal.

#Conclusão

Faltou um ponto a se comentar, que deixei para o final de propósito. Um critério que julgamos essencial, que inclusive é o primeiro critério da lista: que a cidade tenha boas Igrejas Presbiterianas do Brasil. E sim, Brasília as tem.

Mas vou ser honesto aqui com vocês, que Brasília talvez tenha até IPBs demais. Demais a ponto de vermos algumas coisas que nos deixam com um pé atrás. De nos fazer pensar até onde algumas comunidades podem ir e ainda serem chamadas de "presbiterianas".

Isso não quer dizer, claro, que não tenhamos encontrado boas IPBs. Nossa, e como encontramos. Enquanto em Águas Claras, congregamos na 1ª Igreja Presbiteriana de Taguatinga (coisa de 15min de distância). Toda vez que voltávamos da igreja, olhávamos um para o outro e dizíamos: "Será que ainda precisamos continuar? Porque aqui é tão bom, que talvez já dê pra ficar."

No período em que estivemos no Plano, frequentamos a Igreja Presbiteriana do Sudoeste. Uma igreja pequena, mas tão tão acolhedora, que nos deu pena dizer tchau. Uma comunidade que nos faz ter vontade de voltar e morar lá.

Nenhuma dessas igrejas é perfeita, nenhuma de fato será. Mas as duas têm algo que faz diferença: as pessoas. E essa é a verdadeira conclusão que tiramos de Brasília, que vai além das pessoas que conhecemos nas igrejas.

Em Brasília nós temos amigos. Gente que se importa com a gente, que faz questão de estar perto. Gente pelas quais nós nos importamos, gente a quem não apenas queremos bem, mas queremos fazer de tudo ao nosso alcance para que vivam bem. Gente que nós amamos. 

Se em todo lugar a que formos encontrarmos pessoas assim, então essa viagem vai ser muito mais difícil do que imaginávamos. Brasília, apesar de todos os seus custos e poréns, ainda é uma cidade que está no páreo, uma cidade que dá vontade de voltar e morar.

Brasília, nós gostamos bastante de você. 
Quem sabe o que Deus tem preparado para nossa história?
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